
A atuação da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, voltou ao centro do debate sobre conflitos de interesse no Supremo Tribunal Federal (STF).
Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo mostra que o escritório da advogada atua em processos no STF para grandes empresas, entre elas a Hapvida, uma das maiores operadoras de planos de saúde do país. A banca também manteve contrato com o Banco Master, instituição que pertencia ao empresário Daniel Vorcaro.
No caso do Banco Master, o escritório informou que foi contratado entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025 para prestar consultoria e serviços jurídicos. Segundo a própria banca, foram produzidos 36 pareceres e realizadas dezenas de reuniões com representantes do banco. O escritório afirma, porém, que não atuou em processos do Banco Master no STF.
O contrato ganhou ainda mais repercussão após documentos analisados pela Polícia Federal apontarem que Moraes teria sido consultado sobre a minuta do acordo entre o banco e o escritório de sua esposa. A banca afirmou que a consulta ocorreu dentro de procedimentos internos de compliance para verificar eventual impedimento legal.
A Hapvida aparece entre os clientes representados pelo escritório de Viviane Barci de Moraes em processos que tramitam no Supremo. A informação foi revelada em levantamento sobre a atuação da banca na Corte.
A situação chama atenção porque coloca, no mesmo debate público, uma grande operadora de planos de saúde e um banco envolvido em uma crise que hoje movimenta investigações e discussões dentro do próprio STF.
Isso, por si só, não significa que exista ilegalidade. A atuação profissional de um advogado em favor de empresas privadas é legítima, desde que respeitadas as regras de impedimento, conflito de interesses e ética profissional.
O questionamento que permanece é outro: até onde vai a separação entre a atuação privada do escritório e a função pública exercida pelo ministro do STF?
O debate ganhou força justamente porque a Corte enfrenta uma das maiores crises institucionais recentes após a divulgação de informações envolvendo Moraes e Vorcaro. O caso já provocou pedidos de esclarecimentos e forte reação dentro e fora do Supremo.
Enquanto isso, para quem depende de plano de saúde, a discussão ganha uma dimensão ainda mais concreta: negativas de cobertura, autorização de tratamentos e disputas judiciais envolvendo operadoras chegam aos tribunais diariamente.
A questão central não é afirmar que houve crime onde isso não está comprovado. É perguntar se as regras atuais são suficientes para impedir qualquer aparência de conflito de interesses quando familiares de integrantes da mais alta Corte do país atuam profissionalmente para grandes empresas que também possuem interesses discutidos no Judiciário.
O caso coloca novamente o STF diante de uma pergunta incômoda: onde termina a advocacia privada e começa a necessidade de preservar a confiança pública na Corte?