
Tem coisa mais arretada do que estar no meio de uma multidão e, mesmo assim, sentir que ninguém está de fato por perto? Pois é justamente esse sentimento que uma pesquisa internacional colocou no centro da conversa. A solidão, que muita gente trata como simples tristeza ou como coisa passageira, pode estar ligada a impactos importantes no bem-estar e na saúde física e mental.
Uma análise baseada em respostas de mais de 218 mil pessoas, distribuídas por quase 150 países, mostrou que aproximadamente uma em cada cinco pessoas declarou sentir solidão em um dia típico.
Mas o levantamento revela um detalhe arretado: a solidão não pesa igual para todo mundo.
Nos países de alta renda, 15,7% dos entrevistados disseram sentir solidão. Na Nova Zelândia, o índice chegou a 16,2%, enquanto na Austrália ficou em 17,8%. Já nos países de baixa renda, a situação é bem mais pesada: 31,3% afirmaram se sentir sozinhos.
E aí mora uma questão importante. O estudo coloca em xeque aquela velha ideia de que solidão é somente um problema individual, como se bastasse a pessoa “se animar” e pronto. As condições econômicas, a saúde, o emprego, a existência de redes de apoio e a própria força da comunidade também têm peso nessa história.
Entre os fatores analisados, um chamou atenção: ter alguém em quem confiar. Pessoas que afirmam contar com alguém quando precisam apresentam probabilidade muito menor de relatar solidão.
Problemas de saúde, desemprego e não ter um parceiro também aparecem associados ao sentimento. A escolaridade teve relação com níveis menores de solidão em países de renda média e alta, mas essa influência foi bem mais fraca nos países de baixa renda.
Ou seja, meu povo, não é simplesmente questão de querer ou não querer companhia. Muitas vezes, a vida ao redor da pessoa pesa — e pesa muito.
Apesar de ser comum ouvir que o mundo estaria vivendo uma verdadeira epidemia de solidão, os dados analisados de 113 países entre 2023 e 2024 não encontraram uma tendência global clara de aumento.
Pelo contrário: pouco menos de dois terços dos países analisados apresentaram taxas menores de solidão em 2024 do que em 2023.
Só que existe uma diferença importante entre as regiões. Enquanto os índices aumentaram significativamente nos países de baixa renda, permaneceram relativamente estáveis nos países de renda média e caíram nos países de alta renda.
Isso não significa que o problema seja pequeno. A solidão continua associada a menor satisfação com a vida e a maiores níveis de estresse, preocupação, raiva e dor física.
Quem relatou sentir-se solitário também apresentou menor satisfação com a própria vida e com as expectativas para o futuro. Essas pessoas ainda demonstraram maior probabilidade de relatar sofrimento emocional e menor frequência de prazer nas atividades do cotidiano.
Por isso, combater a solidão pode exigir muito mais do que recomendar que alguém simplesmente “saia de casa e faça amigos”.
Nos países mais pobres, políticas de redução da pobreza, melhoria dos sistemas de saúde e ampliação da proteção social podem contribuir para criar condições mais favoráveis à construção de vínculos.
Já em países ricos, o caminho pode passar pelo fortalecimento de espaços públicos, organizações comunitárias e iniciativas que aproximem as pessoas.
No fim das contas, a pesquisa deixa uma lição danada de importante: uma sociedade também pode adoecer quando seus indivíduos deixam de ter com quem contar.
Solidão não é frescura, não é falta de fé e nem sempre é escolha. Às vezes, é o resultado de uma vida cercada de gente, mas pobre de vínculos verdadeiros.
E talvez seja justamente aí que esteja o grande desafio: voltar a construir comunidades onde ninguém precise enfrentar a vida sozinho.
Fonte: The Conversation/O Globo, com base em análise do Gallup World Poll. Autores: Dennis Wesselbaum, da Universidade de Otago, e David Leblang, da Universidade da Virgínia.