
O sistema penitenciário paraense passa a contar com o projeto "ReinserCão", uma iniciativa que une a proteção animal à ressocialização de internos. A partir de uma cooperação técnica entre a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) e a prefeitura de Belém, o canil implantado dentro do sistema penitenciário tem capacidade para reabilitar até 30 cães resgatados em situação de vulnerabilidade. No espaço, os custodiados são capacitados em manejo, adestramento e cuidados veterinários, transformando o cuidado com os animais em uma ferramenta de humanização e preparação para o mercado de trabalho.
Para o diretor de Trabalho e Produção da Seap, Belchior Machado, o projeto representa um avanço nas políticas de reinserção social desenvolvidas no sistema penitenciário. “A atual gestão da secretaria tem consolidado um trabalho de reinserção social que alcança além dos custodiados e familiares, contribuindo com as demandas da sociedade e da cidade. O projeto ‘ReinserCão’ representa um avanço do sistema penitenciário, com o fortalecimento de práticas humanizadas e a construção de novas perspectivas de futuro para os custodiados, ao mesmo tempo em que gera impacto positivo na comunidade e no engajamento à causa animal”, finalizou.
Fluxo de entrada dos animais no canil da Seap
Os animais acolhidos são provenientes de ações da prefeitura de Belém, responsável pelo resgate, triagem e primeiros atendimentos, por meio de seus órgãos de atendimento a animais em situação de rua, como o Centro de Zoonoses, além do apoio com insumos e atendimentos no hospital veterinário municipal.
“Os animais que chegam aqui são, em sua maioria, vítimas de maus-tratos. Eles vêm encaminhados pela prefeitura de Belém, já com os primeiros cuidados e, ao chegarem, passam por avaliação das veterinárias antes de seguirem na rotina do canil”, explica a coordenadora do projeto, Roberta Reis Ramos.
O canil conta com estrutura completa, incluindo consultório veterinário, espaço para banho e tosa e áreas de convivência. Os animais chegam vacinados, vermifugados e castrados, e passam por avaliação veterinária antes de ingressar na rotina do projeto. Atualmente, o espaço abriga nove cães.
No canil, os animais passam por acompanhamento contínuo, que inclui alimentação adequada, higiene, socialização e adestramento. As atividades são desenvolvidas com a participação direta dos custodiados, que atuam no manejo diário dos cães.
“Os cães ficam aqui sendo cuidados pelos próprios internos, que realizam desde a alimentação até o banho e o adestramento. Os animais permanecem no canil até estarem aptos para adoção”, destaca a coordenadora.
De acordo com a médica veterinária Eulita Pedrosa Pantoja, uma das profissionais responsáveis pelo acompanhamento técnico, o trabalho também envolve a reabilitação comportamental dos animais.
“Muitos chegam assustados devido às situações de maus-tratos. Por isso, é realizado um trabalho de ressocialização, com adestramento e acompanhamento diário, para que estejam preparados para a convivência em ambiente familiar”, afirma.
Um dos pilares do “ReinserCão” é a capacitação dos custodiados para o mercado de trabalho. Os internos participam ativamente da rotina do canil, realizando alimentação, higiene, banho, tosa e adestramento dos animais, e têm acesso a cursos e treinamentos voltados ao setor pet, com apoio técnico do Núcleo de Operações com Cães (NOC) da Seap, força especializada da Seap, responsável pelo emprego de cães policiais no sistema penitenciário, atuando no apoio a atividades operacionais como revistas, patrulhamento, busca e detecção de materiais ilícitos.
Para o custodiado Arlênio Marcelo Dias Xavier, a participação na iniciativa representa uma oportunidade de aprendizado e desenvolvimento pessoal. “É uma oportunidade de aprender uma profissão e de recomeçar. A gente aprende a cuidar dos animais e pensa em trabalhar com isso no futuro”, relata.
Adoção responsável
Após o processo de reabilitação, os animais são disponibilizados para adoção responsável. O procedimento inclui etapas de avaliação e acompanhamento por parte da equipe do projeto.
“Temos um termo de adoção. Quando há interesse, a equipe realiza uma visita ao local onde o animal vai ficar para verificar o ambiente e as condições. Também avaliamos se há outros animais e como será a adaptação. Após isso, é assinado o termo de responsabilidade e o animal é encaminhado para o novo lar”, explica a coordenadora Roberta Reis Ramos.
O acompanhamento continua mesmo após a adoção, com o objetivo de garantir o bem-estar do animal. “A gente mantém contato para saber como o animal está. É uma adoção responsável, não é apenas levar o animal, existe todo um acompanhamento”, reforça.
Como funciona a adoção responsável
1. Manifestação de interesse — O tutor em potencial entra em contato com a equipe do projeto e demonstra interesse por um dos animais disponíveis.
2. Visita de avaliação — A equipe do “ReinserCão” visita o local onde o animal irá residir, verificando as condições do ambiente e as possibilidades de adaptação.
3. Assinatura do termo de responsabilidade — Aprovada a avaliação, é formalizado um termo de adoção, no qual o adotante assume o compromisso com o bem-estar do animal.
4. Encaminhamento ao novo lar — O animal é entregue ao novo tutor, acompanhado de todo o histórico de saúde e orientações da equipe veterinária.
5. Acompanhamento pós-adoção — A equipe mantém contato regular com os adotantes para acompanhar a adaptação e garantir o bem-estar contínuo do animal.
Texto: Kayla Fonseca (Seap)