
O Espaço Acolher abriga as vítimas de acidentes com escalpelamento em tratamento, que perderam parcialmente ou totalmente seus cabelos na maioria das vezes com acidente em motor de embarcações. A Fundação Santa Casa é referência neste tipo de atendimento desde o ano de 2005. A instituição criou inclusive o Programa de Atenção Integral às Vítimas de Acidentes com Escalpelamento.
Para Laria Costa Gonçalves, pescadora do município de Oeiras do Pará, que foi vítima de um escalpelamento no último dia 8 de março, o ato da doação de cabelo é um gesto que não tem preço. “O meu acidente foi na casa de forno de farinha. Estava colocando a massa da mandioca, quando parte do meu cabelo foi puxada pelo motor, que não tinha a carenagem de proteção, e levou parte de meus cabelos. E agora eu, que tinha longos cabelos, não tenho mais”, relatou.
“Não sentir mais o meu cabelo, não poder ver ele assim, não ter meu cabelo cacheado mais, é uma tristeza sem tamanho. Eu choro, lembro do que aconteceu, e isso é para a vida toda. Mas eu agradeço a Deus por estar viva. E aqui no Espaço Acolher com esse lindo trabalho de perucas é fundamental a doação de cabelos naturais. É muito importante para a gente que perde o cabelo. Eu gostaria de estar com o cabelo um pouco comprido, para cobrir o acidente e chegar em casa com um cabelo feito em uma peruca especial”, contou.
Wilton Rocha, conhecido como "Wilton Peruqueiro", realiza um trabalho de parceria com o Espaço Acolher, e é um especialista na confecção de perucas com cabelos naturais. Diz que cada peruca é feita de maneira artesanal. “Comecei na adolescência. Eu tecia cabelo para amigos e também fazia peruca. E a partir daí me tornei peruqueiro e hoje eu sobrevivo dessa arte, fazendo para a Santa Casa, a Casa Rosa de Santarém, o Hospital Ophir Loyola”.
“Com essa arte eu me realizo quando vejo uma mulher colocar uma peruca. Sentir bem, ficar bonita e ter um alto astral, né? O cabelo é uma vaidade da mulher. Eu trabalho também com a área de oncologia, e vejo a importância do cabelo para essas mulheres que precisam de tratamento especial. Por isso é importante quem puder doar cabelo, que o faça. Que seja entregue amarradinho com fio e o mais breve possível, após o corte, dois ou três dias”, destaca Wilton Peruqueiro.
Jureuda Guerra, psicóloga da Fundação Santa Casa, reforça que a doação é um ato de solidariedade, de humanismo. “Aqui no Espaço Acolher a gente recebe todo tipo de doação, porque as famílias do interior são muito numerosas, e a gente também conta com o ato da doação de cabelo. E por que doar cabelo para o Espaço Acolher? Porque nós atendemos as mulheres, ribeirinhas, crianças e adultas, vítimas do acidente por escalpelamento”, explicou.
“Uma vez que uma pessoa é acometida por essa tragédia, que é o acidente por escalpelamento, e que atinge pálpebras, sobrancelhas, e até a orelha, elas usam a peruca para também esconder essa falta da orelha, e aí usam a franja para cobrir a falta das sobrancelhas, parte da face. Então, a peruca tem um lugar muito importante para a mulher, devolve uma autoimagem, dela manter aquele rosto que ela já teve em outro momento. Ajuda muito na autoestima e é fundamental para a mulher, no processo do tratamento. Para elas, às vezes, conseguirem vir a Belém, elas precisam estar com uma peruca em dia”, pontua a psicóloga.
Tratamento e apoio às vítimas -Criado em 2006, o Espaço Acolher proporciona acolhimento e acompanhamento psicossocial às vítimas de escalpelamento. O espaço funciona dentro do prédio centenário da Santa Casa, em uma ala com quase 700 m2 totalmente restaurada e adaptada. A estrutura oferece conforto e dignidade, com dormitórios para 30 pessoas, sala de estar, cozinha, refeitório, sala de aula, consultório, brinquedoteca, lavanderia e uma área de convivência comum.
A instituição também conta com o Espaço Acolher para o acolhimento das vítimas em tratamento ambulatorial, quando elas não têm apoio familiar em Belém. O espaço disponibiliza Serviço Social, de Psicologia, uma equipe administrativa da Santa Casa e uma equipe de educadores da Secretaria de Educação do Pará (Seduc) e da Universidade do Estado do Pará (Uepa), essa última parceria, em regime de convênio, com o programa 'Classe Hospitalar'.
Jureuda Guerra destaca ainda que essa peruca artesanal requer um cuidado. “Precisa ser lavada, secar na sombra, assim como o cabelo. Para que a gente receba para doação, não é de qualquer jeito. Esse cabelo precisa ser cortado, em mechas. A gente pede para que seja amarrado em fio e não em liga, porque perde o cabelo quando ele é amarrado em liga. E que assim que as pessoas cortarem, elas podem também trazer, logo aqui na Santa Casa, diretamente conosco, no Espaço Acolher”, explica.
Serviço -Quem desejar contribuir pode doar cabelos diretamente no Espaço Acolher da Fundação Santa Casa do Pará, na Avenida Generalíssimo Deodoro, 143, próximo da rua Oliveira Belo, bairro do Umarizal. Mais informações: (91) 98604-9963.