
Celebrado em 4 de março, o Dia Mundial da Obesidade reforça a necessidade de conscientização sobre uma doença crônica e multifatorial que impacta diretamente a saúde da população. Especialistas do Hospital de Clínicas Gaspar Vianna (HC), em Belém, unidade da rede pública estadual, alertam que o excesso de peso está associado a complicações cardiovasculares, emocionais e metabólicas.
Reconhecida como um dos principais desafios de saúde pública da atualidade, a obesidade envolve fatores biológicos, comportamentais, sociais e emocionais, exigindo abordagem integrada para prevenção e tratamento.
A obesidade é uma doença crônica e multifatorial que exige diagnóstico contínuo e avaliação ampliada do estado de saúde do paciente. De acordo com a nutricionista Luciana Alcântara, as diretrizes mais recentes da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica reforçam que o diagnóstico não deve se limitar ao Índice de Massa Corporal (IMC), embora ele ainda seja um parâmetro importante na prática clínica.
Segundo a especialista, a grande atualização está na necessidade de analisar também a distribuição da gordura corporal e os impactos metabólicos associados. Mesmo pessoas com IMC abaixo de 30 kg/m² pode apresentar risco cardiometabólico elevado, principalmente quando há acúmulo de gordura visceral associado a outros fatores de risco.
Por isso, além do IMC, são recomendadas medidas como circunferência da cintura, relação cintura-quadril e relação cintura-altura, que ajudam a identificar o excesso de gordura abdominal, considerada uma das mais prejudiciais à saúde.
Doenças crônicas –A obesidade está relacionada ao desenvolvimento de diversas doenças crônicas. Entre as principais estão o diabetes tipo 2, a hipertensão arterial, as doenças cardiovasculares, a dislipidemia e a esteatose hepática. Também há maior incidência de alguns tipos de câncer, como os de mama, cólon, reto, endométrio, rins e pâncreas.
Embora a alimentação seja um fator determinante na prevenção, Luciana Alcântara ressalta que o cuidado precisa estar alinhado a um estilo de vida saudável. A prática regular de atividade física, o sono de qualidade, o controle do estresse e a atenção à saúde mental são pilares fundamentais no enfrentamento da doença.
Introdução alimentar na infância –A especialista destaca que a prevenção deve começar na infância. Conforme orientações da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica e da Organização Mundial da Saúde, esse é um período decisivo para a definição da saúde metabólica na vida adulta. O aleitamento materno é apontado como um importante fator de proteção contra a obesidade, pois além de fornecer nutrientes adequados, contribui para a autorregulação da fome.
Luciana explica ainda que a introdução alimentar também exerce papel essencial na formação dos hábitos alimentares. A recomendação é evitar a oferta de açúcar até os dois anos de idade e priorizar alimentos naturais, com variedade e equilíbrio entre os diferentes grupos alimentares. A base da alimentação, segundo a nutricionista, deve ser composta por alimentos in natura, reduzindo ao máximo o consumo de produtos industrializados.
Riscos cardiovasculares –O médico cardiologista Antônio Monteiro explica que existe relação direta entre obesidade e doenças cardiovasculares. “A obesidade é um dos principais fatores de risco para infarto, insuficiência cardíaca, pressão alta e arritmias. O excesso de peso faz o coração trabalhar mais. Quanto maior o peso corporal, maior é a necessidade de o organismo receber oxigênio e nutrientes”, destacou.
Segundo ele, esse esforço contínuo pode levar ao aumento do músculo cardíaco e, em alguns casos, à insuficiência cardíaca. Além disso, a gordura corporal favorece processos inflamatórios que contribuem para o acúmulo de placas nas artérias, aumentando o risco de infarto e AVC. “A perda de peso, mesmo que não seja muito grande, já traz benefícios importantes para a pressão arterial, controle da glicose e do colesterol. Cuidar do peso é uma das formas mais eficazes de proteger o coração”, ressaltou.
Impactos na saúde mental –A psicóloga Aline Rodrigues reforça que os efeitos da obesidade também atingem o campo emocional. “A obesidade pode gerar impactos significativos na saúde mental. Pessoas com obesidade apresentam maior vulnerabilidade a sintomas de ansiedade, depressão, baixa autoestima, distorção da imagem corporal e isolamento social, muitas vezes agravados pelo estigma e pela discriminação”, afirmou.
Ela destaca que o acompanhamento psicológico é fundamental nas estratégias terapêuticas. “O suporte profissional auxilia na identificação de gatilhos emocionais, no fortalecimento da autoestima e na construção de uma relação mais saudável com a alimentação e com o próprio corpo”, explicou.
Atividade física –O educador físico Rômulo Santos ressalta que a prática regular de exercícios é uma das principais estratégias não farmacológicas no enfrentamento da obesidade. “A atividade física contribui para o aumento do gasto energético, melhora a sensibilidade à insulina, regula o metabolismo da glicose e dos lipídios e auxilia na preservação da massa muscular durante o processo de emagrecimento”, pontuou.
Segundo ele, o exercício não deve ser visto apenas como ferramenta para perda de peso, mas como estratégia de promoção da saúde global. Mesmo quando a redução do peso corporal não é expressiva, há ganhos na composição corporal, na capacidade cardiorrespiratória, na força muscular e na saúde mental.
Texto: Kelly Barros (Ascom HC)