
Richard Lopez, 14 anos, chegou ao Brasil em 2019 com seu pai e seus cinco irmãos. Morou inicialmente em Boa Vista (RR) e há poucos meses a família se mudou para Belém devido à falta de condições em que viviam na capital roraimense. Aqui, encontraram uma comunidade de venezuelanos já estabelecida, onde vivem outros integrantes da sua família.
“Lá [Boa Vista] é muito bom, mas é difícil morar lá. Não tinha muita comida, meu pai não trabalhava. Tinha que pedir pra outra pessoa emprestar dinheiro para a gente comer. Às vezes a gente ficava sem luz. Aqui é melhor, tem família”, relata o jovem.
Richard é um dos50 indígenas Warao matriculados na Escola Municipal Professor Pedro Demo, no Distrito de Outeiro, onde estão cinco comunidades indígenas da etnia. A escola integra o Projeto de Acompanhamento Pedagógico a Estudantes Estrangeiros e Indígenas (Papeei), da Secretaria Municipal de Educação (Semec).

Criado em 2024, o Papeei visa garantir um ensino que atenda às especificidades de estudantes indígenas e estrangeiros (imigrantes e refugiados), matriculados na rede municipal de educação. “A gente atua paragarantir a inclusão educacional, por meio do acesso, acolhimento, matrícula, permanência e conclusão desses estudantes,respeitando suas especificidades sociolinguísticas, culturais e interculturais”, explica Nanci Cartágenes, técnica de referência da Coordenação de Educação Escolar dos Indígenas, Imigrantes e Refugiados (Ceeiir), da Semec.
Atualmente, existem na Rede Municipal de Educação 347 alunos estrangeiros, dos quais 271 são indígenas Warao venezuelanos. O acompanhamento desses estudantes pela Semec começa desde a pré-matrícula, muitas vezes realizada com o auxílio da própria escola, devido às barreiras linguísticas e tecnológicas que as famílias enfrentam.

Gizela Rocha é professora do Ceeiir na Escola Pedro Demo. Ela explica que os líderes das comunidades indígenas Warao fazem a ponte para que a escola chegue até as famílias, e que as equipes escolares também fazem busca ativa para levar e manter os estudantes na escola. “Lá nós somos acolhidos pelos líderes e conversamos a respeito da importância da criança no contexto escolar para integração, ensino e aprendizagem dela no Brasil”, afirma a professora.
Uma vez matriculados, esses alunos são inseridos nas turmas juntamente com os estudantes brasileiros. De acordo com Nanci Cartágenes, essa é uma forma de promover uma verdadeira inclusão. “É uma forma, inclusive, de tentar evitar preconceitos, bullying, racismo indígena e xenofobia”, afirma.

No dia a dia, o acompanhamento dos alunos é realizado tanto em relação à frequência, quando a escola busca verificar o porquê de possíveis ausências e dá as devidas orientações, como em relação ao aprendizado em si, em sala de aula e individualmente.
A professora Gizela conta que muitas vezes entra nas turmas para acompanhar os alunos e fazer a mediação linguística. Assim como outros professores do Ceeiir, ela possui dupla habilitação, em pedagogia e português-espanhol, e realiza atividades extraclasse para auxiliar no aprendizado dos alunos estrangeiros.
“Não é só colocar dentro da sala de aula. Nós, enquanto Ceeiir,preparamos atividades avaliativas diagnósticas para serem aplicadas quando as crianças ingressam na escola, são preparados materiais didáticos específicos para cada criança, específico para o nível de aprendizagem de cada criança”, explica a professora.
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A técnica de referência Nanci Cartágenes reforça quea inclusão já começa desde a matrícula. A Ceeiir realiza um diagnóstico com cada criança, para avaliar o seu nível de conhecimento. “Como a maioria são hispanofalantes, o teste é elaborado na língua materna deles, o espanhol. Essa é uma forma de acolher e respeitar seus conhecimentos prévios, sua cultura e intercultura. Apenas os estudantes da Educação Infantil não fazem teste diagnóstico”, esclarece.
As avaliações diagnósticas que a Semec realiza para toda a rede municipal de educação também são adaptadas. “Elaboramos a prova de português em uma perspectiva de português para estrangeiro, mais precisamente, Português como Língua Adicional (PLA). Como a Matemática é universal, fazemos apenas a seleção de algumas questões para esses estudantes fazerem”, explica Nanci.

O resultado desse trabalho é visível. Rainelis Cooper, 8 anos, está no 3º ano e conta que já aprendeu a ler e escrever. Ela já participou de várias Olimpíadas de Matemática e, quando questionada sobre o que mais gosta na escola, não hesita em dizer: “mis compañeros”.
Rainelis estuda na Escola Pedro Demo há um ano, e possui um irmão, também matriculado na escola. Segundo a professora Gizela, existe uma preocupação em manter numa única escola os alunos que são da mesma família e da mesma comunidade.
O aluno Richard Lopez lembra que onde estudava anteriormente tinha dificuldades de entrosamento. “Eu quase nem falava com meus amigos, porque quase todos eram brasileiros. Não conseguia falar porque não entendia o que eles falavam. Quando cheguei para cá [Escola Pedro Demo], tinha venezuelanos aqui, aí eu consigo fazer amizades com eles, conversar”, conta. E acrescenta que na turma já fez amigos brasileiros também.
Richard quer aprender. “Eu gosto mais de fazer aprendizagem de matemática. Multiplicação, divisão, o básico… Mas tem muita coisa que eu quero aprender ainda”, diz ele, em um português já bem elaborado.
Para a professora Gizela, é muito bom ver o resultado do trabalho realizado com os alunos estrangeiros. No caso dos Warao, que também falam a língua indígena, é ainda mais gratificante, poisexiste um esforço de ensinar o português sem deixar de lado as línguas nativas.
“A gente vê o desenvolvimento. É feita a prova diagnóstica, o mapeamento, o direcionamento da aprendizagem, e quando você vê que o aluno começa a evoluir no aprendizado da língua de acolhimento, que passa ao letramento e à alfabetização… é maravilhoso quando tem um aluno trilíngue [que fala Warao, espanhol e português]. E aí você coloca aquele aluno para viver a vida no Brasil, no Pará, em Belém, em Outeiro”, afirma a professora.