Na manhã desta sexta-feira (14), o grito de guerra dos guerreiros Munduruku ecoou mais alto que os discursos oficiais dentro da COP30. Articulados pelo Movimento Ipereg Ayu, os indígenas realizaram um protesto que paralisou a entrada principal da Blue Zone, área restrita das negociações climáticas. O alvo da manifestação foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem cobram uma reunião emergencial para frear o que chamam de "vendação da floresta" pelo próprio governo federal.
A tensão tomou conta do local quando o grupo, em um ato de desobediência civil simbólica, fechou o acesso e começou a orientar participantes e jornalistas a entrarem pelo local de saída do evento. A mensagem era clara: enquanto seus direitos forem violados, a passagem para as discussões sobre o futuro do planeta também estará bloqueada.
De acordo com nota do Movimento Ipereg Ayu, obtida com exclusividade pelo Portal Parazão, a cobrança vai além dos já conhecidos megaempreendimentos. Eles soam o alarme contra dois fronts: os projetos de infraestrutura que avançam sem a Consulta Prévia – um direito garantido pela Convenção 169 da OIT – e os mecanismos de crédito de carbono e REDD+ que estão no centro das negociações da COP.
Continua após a publicidade
"O governo e o mundo precisam entender que nossa floresta não está à venda. Nós não negociamos a mãe natureza", declarou uma liderança Munduruku, em discurso contundente durante o ato. Para o movimento, o carbono virou uma nova moeda para permitir a invasão de empresas e intermediários nos territórios, sem atacar a raiz da destruição: o desmatamento industrial, o garimpo, as hidrovias e a expansão da soja.
O principal alvo da ira indígena é o Decreto nº 12.600/2025, que institui o Plano Nacional de Hidrovias e coloca os rios Tapajós, Madeira e Tocantins na vitrine como eixos prioritários para o transporte de carga. Os Munduruku enxergam no documento a "porteira" oficial para a destruição: dragagens que reviram o fundo dos rios, derrocamento de pedrais sagrados para a cultura ancestral e uma explosão de portos privados que transformarão suas terras em corredores de exportação.
Enquanto o governo tenta vender ao mundo a imagem de potência verde, na porta do maior evento climático do planeta, os povos originários pagam o preço com a ameaça concreta a seus territórios. A mensagem dos Munduruku, dada com o corpo e a voz no portão da COP, é que não há acordo climático que valha sem o respeito a quem sempre protegeu a floresta.