
Thomas Cruz, de 66 anos, é um dosMestres de Cultura de Belém. Morador de Icoaraci, é compositor, percussionista e produz instrumentos típicos do carimbó, profissão que aprendeu com os pais, quando ambos criaram o grupo de carimbó Os Africanos, em 1968. Além de compor e produzir instrumentos, Thomas passou a fazer parte do grupo tocando, até 1973 quando o grupo foi encerrado.
Décadas depois, em 2004, ele decidiu retomar o legado familiar. Nascia entãoOs Africanos de Icoaraci, grupo que permanece ativo até hoje e que mantém viva umatradição marcada pelos tambores, pelo maracá e pelas narrativas populares da Amazônia.
Além das apresentações, Thomas dedica parte do tempo a oficinas de percussão e fabricação de maracás voltadas a moradores interessados em criar seus próprios grupos de carimbó.O conhecimento, diz ele, precisa circular para continuar existindo.
Agora, essa mesma lógica da transmissão oral atravessa também os editais públicos de cultura. Thomas é um dos inscritos noEdital de Chamamento Público 002/2026 — Prêmio Mestres e Mestras da Cultura Popular, promovido pela Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Cultura (Secult), com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB).
A principal novidade desta edição está no formato de inscrição: além do modelo escrito, candidatos podem apresentar propostas vídeo ou oralmente, nesse caso, presencialmente na sede da Secult, onde servidores registram os relatos dos participantes.
Para Thomas, a mudança aproxima o poder público da realidade de mestres populares cuja trajetória raramente foi documentada em currículos formais.

“É a primeira vez que submeto um projeto baseado na oralidade, sempre foi por escrito. Achei uma proposta excelente, até para outros mestres que estão começando.Tudo que a gente aprende e repassa é por meio da oralidade”, afirma.
O vídeo enviado por ele mostra oficinas, rodas de carimbó, a confecção artesanal dos instrumentos e o cotidiano cultural construído ao longo de décadas em Icoaraci. O projeto inscrito prevê oficinas de percussão e maracá, além do ensino da prática instrumental.
Segundo a secretária municipal de Cultura, Raphaela Segadilha, a modalidade de inscrição por oralidade ainda é recente no Brasil, mas surge como umaalternativa paraampliar o acesso de mestres tradicionais às políticas públicas de cultura.
“Existem muitos mestres que não têm portfólio, mas têm história. E conseguem contar sobre seus trabalhos por meio da oralidade, principalmente os mestres antigos, cujos trabalhos não estão registrados”, explica.
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No bairro do Guamá, outra guardiã da cultura popular também aposta na memória falada como instrumento de permanência. Rosângela de Nazaré, conhecida comoRosa do Boi ou Mestra Rosa, de 61 anos, inscreveu no edital um projeto voltado à manutenção do Boi Bumbá Juventude Curumim Tabajara.
A manifestação percorre ruas, praças e espaços culturais do bairro, reunindo personagens, músicas e cortejos que atravessam gerações. O projeto apresentado por Mestra Rosa busca recursos para sustentar a produção do boi, incluindo figurinos, preparação dos brincantes, oficinas de leitura ligadas à tradição e apresentações em bairros de Belém e municípios paraenses.

Para ela, ainclusão de vídeos e registros orais nos processos de seleção representa reconhecimentodas formas populares de construir conhecimento.
“Eu acho que com a modernidade as coisas vão melhorando. Em vídeo as pessoas têm a oportunidade de ver o nosso trabalho, os nossos registros”, diz.
As inscrições do Edital de Chamamento Público 002/2026 — Prêmio Mestres e Mestras da Cultura Popular e do Edital de Chamamento Público 001/2026 — Seleção de Projetos para firmar Termo de Execução Cultural foram prorrogadas e se encerram nesta sexta-feira, 22.