
O desfile das escolas de samba doGrupo Umtomou conta do corredor da folia na Aldeia Amazônica, no bairro da Pedreira, na noite do último sábado (07), em Belém (PA). A programação, promovida pela Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Cultura (Secult), começou por volta das 22h e reuniusete agremiações.
Na disputa por duas vagas de acesso ao Grupo Especial, as escolas entraram na avenida determinadas a conquistar o público e os jurados. O resultado foi uma noite marcada por enredos que exaltaram a cultura amazônica, a religiosidade, a identidade popular e também homenagearam personalidades paraenses históricas.


Abrindo os desfiles, a Associação Carnavalesca Império Jurunense levou para a avenida o enredo “Princesinha do Vale do Acará: Onde a Ancestralidade floresce em União e Força”. O desfile foi inspirado na história do município de Concórdia do Pará, nordeste paraense. A agremiação valorizou elementos da cultura paraense e destacou a trajetória de emancipação da cidade.
Para o presidente da agremiação, Sérgio Moraes, a Império Jurunense defendeu um carnaval com identidade regional. “Esse ano a gente trouxe uma proposta diferente, que é uma proposta de honrar o município daqui do nosso estado do Pará, divergindo de outros carnavais que tentam fazer o Carnaval do Rio de Janeiro e São Paulo. A gente veio privilegiar aquilo que é nosso, aquilo que a gente tem de melhor, que são os municípios daqui do nosso Pará”, destacou.




A escolha de Concórdia do Pará também dialoga com a própria história da escola. “Escolhemos o município de Concórdia porque tem uma história parecida com a do Império Jurunense. O império nasceu junto com uma outra agremiação e teve um momento que a gente precisou se desvencilhar e lutar pela nossa emancipação, igualmente Concórdia, que nasceu de Bujaru e teve um momento em que precisou lutar pela emancipação”, explicou.
Na avenida, a escola reuniu cerca de 850 brincantes. “Cerca de 25% são da nossa comunidade e os demais são de Belém e também de Concórdia do Pará. A gente resolveu integrar a comunidade concordiense à comunidade jurunense e trazer tudo isso no Carnaval de Belém, pra mostrar que dá sim pra fazer um Carnaval bonito honrando tudo aquilo que é nosso”, afirmou o presidente.

A Associação Carnavalesca Coração Jurunense foi a segunda escola a desfilar na Aldeia, levando para a passarela do samba o enredo “Erê, a Encantaria de Brincar no Coração Jurunense”, uma homenagem às crianças encantadas presentes nas religiões de matrizes africanas.
De acordo com o presidente da agremiação carnavalesca, Mário do Espírito Santo dos Santos, o tema escolhido traduz valores como amor, carinho e paz. “É falar das crianças, de paz, de carinho e amor. Inclusive nós estamos trazendo duas alas somente com crianças, e vamos dar um show. Falar de Erê, para mim, é falar de algo especial”, destacou.




Nos cultos afro-brasileiros, como o Candomblé e a Umbanda, os erês são entidades espirituais com energia infantil. Eles representam a pureza e a alegria das crianças, sendo considerados a parte infantil dos orixás. Também simbolizam leveza, brincadeira, sinceridade e espontaneidade. Esses elementos estiveram presentes ao longo de todo o desfile da Coração Jurunense.
Os carros alegóricos exibiram uma profusão de brinquedos, enquanto as alas se destacaram pelas cores vibrantes e fantasias de inspiração infantil. A escola deu vida ao universo lúdico desses seres encantados, ressaltado pela expressiva participação de crianças e por referências a bombons e outras guloseimas, doces tradicionalmente associados aos erês.

O Grêmio Recreativo Escola de Samba Piratas da Batucada também marcou presença no desfile do Grupo Um, levando para o corredor da folia da Aldeia Amazônica a força da bateria e a animação dos brincantes na disputa por uma vaga de acesso ao Grupo Especial.




O vice-presidente da agremiação, Edmilson Pereira, afirma que o desfile deste ano apresentou ao público um enredo inspirado nos mistérios e nas histórias que envolvem a noite. “A gente vem falando basicamente da criação da noite na nossa comissão de frente. É um enredo que trata de tudo que acontece durante a noite”, explicou.
A escola levou para a avenida cinco alas e cerca de 700 brincantes, com elementos que retratam personagens e narrativas do universo noturno. “Nós vamos levar a ala ‘Na Noite Todos os Gatos São Pardos’, falar sobre a lenda da criação da noite e também homenagear os trabalhadores que atuam nesse período, como os garçons”, destacou.

A quarta escola a desfilar na avenida foi o Grêmio Recreativo Social e Cultural Escola de Samba Mocidade Olariense, que levou para a passarela do samba uma homenagem à rainha do mar, Iemanjá.
Com o enredo “Odoyá, salve a Rainha do Mar”, a agremiação destacou a importância da Orixá, considerada protetora da escola de samba. Durante o desfile, carros alegóricos e alas trouxeram elementos que remeteram ao universo marinho e a sua mãe protetora.




De acordo com o presidente da escola, Jair Nazareno Rodrigues Lima, as alegorias foram pensadas para exaltar o mar e tudo o que ele representa. “Os carros alegóricos exaltam o mar e seus elementos, que são os peixes, as almas e toda a beleza e riqueza dos mares”, explicou. Além de contar a história de Iemanjá, a agremiação também apresentou outros Orixás e Entidades que compõem a força das religiões de matrizes africanas.

A Escola de Samba Guardiões do Samba, tradicional no bairro da Pedreira, levou para a avenida o enredo “Brazil, Teu Avesso Tem Mais Brilhos, Em Teus Brilhos Mais Amores”. O “Z” em “Brazil” é proposital. O enredo propõe uma reflexão sobre as diferentes faces do país, contrapondo a imagem idealizada de um “Brasil” apresentado como cartão-postal com a realidade vivida pelo seu povo. A escola buscou mostrar o “avesso” dessa narrativa, revelando histórias, identidades e manifestações culturais muitas vezes invisibilizadas, mas que representam a verdadeira força e diversidade da cultura brasileira.




A Guardiões do Samba completa seis anos de fundação. No corredor da folia, fez uma apresentação que destacou a importância da união da comunidade na construção do desfile. Vera Pampolha, integrante da diretoria da escola, relembra o ponto central desse nascimento. “A nossa escola surgiu da união de amigos que gostam da cultura e gostam do samba. O trabalho na avenida é um trabalho de união, é um amor pela escola”, disse.
Vera explicou ainda que toda a comunidade se mobilizou para o desfile deste ano. “Vamos levar para a avenida cerca de 800 brincantes. Estamos empolgados em poder levar nossa juventude com essa responsabilidade de guardar o nosso samba da Pedreira”, destacou.

A sexta escola a desfilar na avenida da Aldeia Amazônica foi o Grêmio Recreativo Jurunense Rancho Não Posso Me Amofiná, que apresentou um enredo marcado pela valorização da cultura paraense e da musicalidade popular do estado.
Com o samba-enredo “Amazônia, Uma Epopeia de Coragem e Preservação: Belém, Capital Mundial do Brega”, a agremiação conduziu o público por um passeio pela história do brega paraense, passando por suas diferentes vertentes e chegando ao tecnobrega, um dos ritmos que mais movimenta as aparelhagens e festas populares na capital paraense. Durante o desfile, a escola homenageou a Amazônia e a cidade de Belém, destacando a importância cultural do brega e celebrando grandes cantores que marcaram a trajetória do gênero no Pará.




De acordo com o presidente da escola, Jackson Santarém, o enredo reforça a identidade cultural da capital paraense: “Belém é uma cidade que respira cultura e o brega está em ascensão como sempre esteve. O brega hoje é uma marca do estado do Pará, assim como o carimbó e o siriá. Além disso, Belém foi escolhida a capital mundial do brega, então o nosso enredo é lindo e feito em homenagem aos nossos grandes talentos”, destacou.
Entre os principais destaques da apresentação, e reforçando a presença do ritmo nas festas populares da região, estavam os carros alegóricos representando a Amazônia e a capital paraense. A alegoria apresentou elementos do cotidiano ribeirinho, como as embarcações equipadas com aparelhos de som tocando brega e um carro dedicado ao tecnobrega com DJs paraenses.

Encerrando os desfiles do Grupo Um, a Associação Carnavalesca Alegria Alegria levou para a avenida o enredo “Alegria, Alegria! O Povo Canta Hélio Gueiros, Cem Anos de Amor pelo Pará”. A escola apresentou uma homenagem à trajetória de Hélio Gueiros, destacando sua importância para a história política, cultural e social do estado.
Inspirado na vida e no legado do ex-governador do estado do Pará, o desfile levou ao público uma narrativa que percorre diferentes momentos de sua história, desde a juventude no Ceará até sua atuação pública no Pará.




A proposta foi apresentar a relação entre a trajetória do líder político e a identidade do povo paraense, ressaltando valores como fé, educação, cultura e pertencimento. A apresentação foi estruturada como um grande livro aberto na avenida, em que cada setor representou um capítulo da vida de Hélio Gueiros e da formação cultural do Pará. Elementos simbólicos, referências à cultura popular e passagens marcantes da história do estado ajudaram a construir a narrativa levada pela escola.
Texto: Joyce Assunção e Vivian Carvalho