Enquanto moradores da zona rural de Parauapebas enfrentam atoleiros, estradas intransitáveis e organizam protestos cobrando o mínimo de trafegabilidade, os cofres públicos do município registraram, somente entre janeiro e agosto de 2026, um repasse de R$ 22.151.591,25 a uma única empresa contratada para a manutenção das vicinais. A informação consta em levantamento com base em dados públicos de pagamento, e expõe a distância entre o volume de dinheiro público injetado e a realidade vivida no campo.
Os recursos foram destinados à empresa Empório A&C Ltda, contratada pela Secretaria Municipal de Obras (SEMOB) sob a justificativa de dispensa de licitação e contratação emergencial, formalizada nos contratos nº 20250906 e nº 20250907. O modelo de contratação chama atenção não apenas pelo valor acumulado, mas pela recorrência: os pagamentos se repetiram mês após mês ao longo de todo o ano, sempre sob o rótulo de manutenção "emergencial" — modalidade que, por lei, deveria ser excepcional e pontual, e não uma prática continuada.
Veja o histórico de repasses feitos à empresa ao longo do exercício de 2026:
| Data do Pagamento | Valor (R$) | Justificativa |
|---|---|---|
| 03/08/2026 | R$ 1.500.000,00 | Contratação Emergencial (Vicinais – 5º BM/Abril) |
| 02/07/2026 | R$ 1.700.000,00 | Contratação Emergencial (Vicinais – 5º BM/Abril) |
| 19/06/2026 | R$ 1.415.928,47 | Contratação Emergencial (Vicinais – 5º BM/Abril) |
| 01/06/2026 | R$ 1.991.881,27 | Contratação Emergencial (Vicinais – 4º BM/Março) |
| 08/05/2026 | R$ 2.340.057,16 | Contratação Emergencial (Vicinais – 4º BM/Março) |
| 18/03/2026 | R$ 4.530.284,04 | Contratação Emergencial (Vicinais – 3º BM/Fevereiro) |
| 12/03/2026 | R$ 2.013.702,99 | Contratação Emergencial (Vicinais – 3º BM/Fevereiro) |
| 24/02/2026 | R$ 4.009.667,37 | Contratação Emergencial (Vicinais) |
| 29/01/2026 | R$ 2.650.069,95 | Exercícios Anteriores/Emergencial (Vicinais – 1º BM/Dezembro) |
| TOTAL | R$ 22.151.591,25 |
A dispensa de licitação em casos de emergência é prevista em lei e não configura, por si só, irregularidade. O que motiva o questionamento jornalístico é a recorrência mensal dos pagamentos sob essa mesma justificativa ao longo de oito meses seguidos — padrão que, segundo especialistas em administração pública, costuma levantar dúvidas sobre se a real natureza da contratação ainda se enquadra como "emergencial".
O contraste entre os números e a realidade do campo ficou ainda mais evidente nesta semana. Moradores e trabalhadores rurais da região do Contestado, em Parauapebas, iniciaram na terça-feira (1º) uma mobilização que, segundo documento entregue ao poder público, vai além da simples cobrança por estradas: a pauta inclui melhorias no transporte escolar, no atendimento à saúde, nas condições de educação e em investimentos básicos de infraestrutura.
Participam do movimento comunidades como Vila Brasil, PA União, Novo Brasil, PA Liberdade, Cachoeira Preta, Maria da Glória e Terra e Liberdade, com apoio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Segundo relatos das próprias famílias, a situação das estradas — especialmente na região das Três Voltas e localidades vizinhas — não é um problema recente: são anos de tentativas de diálogo com o poder público municipal sem solução efetiva. A proximidade do período chuvoso amplia a preocupação, já que a piora da trafegabilidade pode isolar ainda mais essas comunidades, comprometendo o acesso à saúde e o transporte seguro de estudantes. Durante os atos, manifestantes classificaram as intervenções feitas até aqui como apenas paliativas, e cobraram obras estruturais definitivas.
A movimentação ocorre em uma área historicamente marcada por disputa territorial entre Parauapebas e Marabá — o que levou os manifestantes a pedir, no primeiro dia de protesto, a presença de representantes dos dois municípios. Ainda assim, a pauta formal direciona as cobranças diretamente à Prefeitura de Parauapebas. Em documento divulgado pelo movimento, as comunidades resumiram o tom da mobilização: "Não estamos reivindicando privilégios. Estamos reivindicando direitos"
Os números batem de frente: de um lado, mais de R$ 22 milhões em pagamentos classificados como "manutenção emergencial" de vicinais em apenas oito meses; do outro, comunidades inteiras nas ruas denunciando estradas intransitáveis, ausência de obras estruturais e o temor concreto de ficarem isoladas com a chegada das chuvas.
Se o dinheiro já saiu dos cofres públicos e chegou às contas do credor, a pergunta que fica para a gestão municipal é direta: por que a zona rural de Parauapebas continua isolada, precisando ir às ruas cobrar o mínimo de trafegabilidade?
O Portal Parazão Tem de Tudo solicitará à Prefeitura de Parauapebas e à Secretaria Municipal de Obras (SEMOB) esclarecimentos sobre a natureza exata dos serviços prestados pela Empório A&C Ltda, os critérios técnicos que justificam a renovação mensal da contratação emergencial, e o plano de resposta às reivindicações apresentadas pelas comunidades do Contestado. O espaço permanece aberto para manifestação da gestão, e esta matéria será atualizada assim que houver retorno oficial.