A diferença entre o patrimônio declarado à Justiça Eleitoral e os bens alcançados pela Operação Hades voltou a chamar atenção no cenário político paraense. Em 2024, Daniel Santos declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) patrimônio de R$ 4.849.539,60. Um ano depois, durante a Operação Hades, foram apreendidos em um apartamento de alto padrão em Fortaleza, no Ceará, relógios de luxo avaliados pelo Ministério Público do Pará (MPPA) em aproximadamente R$ 2,5 milhões a R$ 3 milhões.
A comparação, porém, precisa ser feita com cautela: os relógios apreendidos não equivalem ao patrimônio declarado por Daniel e tampouco há, nas fontes consultadas, confirmação de que todos os bens encontrados sejam patrimônio de sua propriedade formal. O que existe é uma investigação judicial que apura a origem, a titularidade e as circunstâncias relacionadas a esses bens.
Entre os relógios divulgados após a operação estão peças das marcas Richard Mille, Audemars Piguet, Rolex e Cartier. Uma das peças, um Richard Mille Felipe Massa, foi estimada em mais de R$ 1,1 milhão, enquanto outros relógios também alcançavam centenas de milhares de reais individualmente.
O caso ganhou ainda mais dimensão porque a Operação Hades não se limitou aos relógios. Segundo informações divulgadas pelo MPPA e pela imprensa, a investigação apura suspeitas de corrupção, fraude em licitações, lavagem de dinheiro e outros crimes, envolvendo agentes públicos e empresários relacionados a contratos do município de Ananindeua.
Um dos pontos mais expressivos da operação foi a determinação judicial de bloqueio de aproximadamente R$ 500 milhões em bens de pessoas físicas e jurídicas investigadas. Desse montante, cerca de R$ 140 milhões foram atribuídos direta ou indiretamente a Daniel Santos, segundo reportagens que reproduzem informações da investigação. O valor é aproximadamente 28 vezes superior aos R$ 4,85 milhões declarados à Justiça Eleitoral em 2024.
A investigação também teria identificado bens de alto valor, incluindo propriedades rurais, aeronaves, máquinas agrícolas e imóveis. Reportagens baseadas nas informações apresentadas pelo MPPA mencionam uma fazenda avaliada em cerca de R$ 16 milhões, aeronaves e equipamentos agrícolas entre os ativos investigados.
Outro eixo da Operação Hades envolve empresas que mantinham contratos com a Prefeitura de Ananindeua. Segundo o MPPA, haveria indícios de que empreiteiras beneficiadas por contratos públicos teriam financiado ou custeado bens e despesas particulares ligados ao prefeito e a pessoas de seu entorno.
Entre os exemplos divulgados estão pagamentos relacionados a maquinário agrícola, combustível e uma aeronave. As informações fazem parte das suspeitas investigadas e ainda dependem da conclusão dos processos e da análise judicial das provas.
O contraste é expressivo: R$ 4,85 milhões declarados oficialmente em 2024 contra até R$ 140 milhões em bens alcançados por bloqueio judicial na investigação. A diferença, por si só, não significa que os R$ 140 milhões constituam patrimônio definitivamente reconhecido como pertencente a Daniel Santos, já que se trata de bens submetidos a medidas judiciais no âmbito de uma investigação.
Ainda assim, os números colocam a evolução patrimonial sob forte escrutínio público. A própria investigação busca esclarecer a origem dos recursos, a titularidade dos bens e eventuais relações entre contratos públicos e aquisições privadas.
Daniel Santos é investigado no âmbito da Operação Hades e, conforme decisões judiciais divulgadas à época, houve posteriormente determinação do Superior Tribunal de Justiça permitindo seu retorno à Prefeitura de Ananindeua, com ressalvas sobre o estágio inicial das apurações e a necessidade de cautela diante da ausência, naquele momento, de contraditório estabelecido.
O caso permanece cercado de questionamentos. De um lado, está a declaração oficial apresentada à Justiça Eleitoral. Do outro, estão os bens apreendidos, os bloqueios milionários e as suspeitas apresentadas pelo Ministério Público. A resposta definitiva sobre a origem e a propriedade desses patrimônios caberá à Justiça após o avanço das investigações e dos processos.