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Espera por diagnóstico de dermatite atópica no SUS pode chegar a uma década, alerta médico
Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados Paula Belmonte citou o risco de bullying em razão da doença no ambiente escolar Profissionais ouvidos nesta seg...
09/05/2022 20h06
Por: Redação Fonte: Agência Câmara de Notícias
Paula Belmonte citou o risco de bullying em razão da doença no ambiente escolar - (Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados)

Profissionais ouvidos nesta segunda-feira (9), na Câmara dos Deputados, pela Comissão Externa da Primeira Infância alertaram para a demora no diagnóstico dos casos de dermatite atópica, que pode chegar a uma década na rede pública.

O colegiado trabalha para a criação do dia nacional para conscientização sobre essa doença (23 de setembro), como já acontece com a psoríase e a artrite reumatoide, que são consideradas doenças incapacitantes. Esse será o tema de um projeto de lei a ser apresentado nos próximos dias pela comissão. A ideia é divulgar informações sobre a doença, bem como debater políticas públicas direcionadas ao tratamento.

Pacientes que sofrem com dermatite atópica apresentam coceiras intensas na pele que, em alguns casos, geram dor e podem causar infecções. Além disso, estão mais predispostos a depressão, insônia, asma, doenças autoimunes e problemas cardíacos.

A doença atinge com maior intensidade crianças na primeira infância e jovens na fase de transição da infância para a adolescência. De 15 a 20% das crianças sofrem de dermatite atópica em algum grau. Entre adultos, essa margem é de 2 a 10%.

Omar Lupi: "Não é uma doença de uma só pessoa, mas da família inteira - (Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados)

Aumento da incidência
No comando do ambulatório de dermatite atópica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) há 15 anos, o médico Omar Lupi alertou que o intervalo de tempo entre a primeira manifestação da doença e o início do tratamento dura em média nove anos e meio.

“É uma década que a criança e a família trafegam no escuro”, disse, apontando um aumento de dez vezes na incidência da alergia nos últimos 30 anos.

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“A dermatite atópica não é uma doença de uma só pessoa, é uma doença da família inteira. É do irmão que divide o quarto, é da avó que dorme junto, é da mão e do pai que não dormem a noite e não conseguem trabalhar”, frisou Lupi.

Ele salientou ainda que a doença está relacionada ao aumento de hospitalização por comorbidades, como doenças que afetam o sistema imunológico. “Essas comorbidades tem aumento no custo saúde, impacto na redução da qualidade de vida, da produtividade e um impacto familiar muito grande”, avaliou.

Bruna Rocha: "Ter um diagnóstico é um alívio - (Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados)

A representante da Associação Crônicos do Dia a Dia (CDD), Bruna Rocha, também se mostrou preocupada com a demora para diagnosticar a doença. Segundo levantamento da instituição, 50% das pessoas levaram mais de 12 meses para serem diagnosticadas e 75% dos entrevistados precisaram consultar mais de três especialistas.

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“São pessoas que ficam circulando por muito tempo no sistema de saúde, buscando um nome para aquilo que elas têm. Ter um diagnóstico é um alívio, porque a gente sabe com o que está lidando”, ressaltou.

Impactos mentais
Preocupada com os efeitos da doença na saúde mental de crianças, a deputada Paula Belmonte (Cidadania-DF) falou sobre o risco de agressão psicológica no ambiente escolar. “Há também rejeição no ambiente social de crianças, por se achar que a doença pode ser transmitida e principalmente pela rejeição física, as crianças sofrerem bullying em razão disso”, alertou a parlamentar, que tem uma filha diagnosticada com dermatite atópica.

Na mesma linha foi o relato da professora Suzana de Almeida Costa Mesquita. “É muito difícil firmar a identidade quando a gente escuta o tempo inteiro coisas ruins a respeito de sua imagem, de seu corpo. Quando você não tem a chance de mostrar quem você é, porque você já é julgado por fora”, contou. Ela descreve sobre seu cotidiano com a doença no perfil “Minha vida com Dermatite”, na rede social Instagram.

“Além do impacto mental, tenho pacientes com ideário suicida”, relatou Omar Lupi.  “Já são vários com ajuda de psicólogos e psiquiatras.” Segundo ele, o risco de depressão em pacientes com esse tipo de dermatite é duas vezes maior do que em pessoas que não têm a doença.

“O paciente que tem a crise sabe que tem vários fatores ambientais que podem desencadeá-la, então isso gera ansiedade antes que ela tenha a lesão e, obviamente, isso tem um comprometimento em qualidade de vida”, destacou.

Bruna Rocha citou levantamento da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) pelo qual pessoas com dermatite atópica têm 44% a mais de probabilidade de suicídio. “A gente está falando de crianças e jovens que estão pensando em suicídio em uma taxa muito alta”, lamentou.