Imagine a cena: você passa na rua e se depara com uma colisão entre motos. O acidente é tão violento que as duas pessoas que conduziam os veículos são arremessadas e batem com a cabeça no chão. Elas estão sem capacete, o que aumenta o trauma, e sangram bastante. A ambulância chega enquanto agentes de trânsito levantam as possíveis causas. Uma das vítimas, uma mulher de 40 anos, grita de dor, enquanto a outra, um homem de 45 anos, está desacordada.
No hospital, são identificadas múltiplas fraturas nos membros superiores e inferiores, além de traumatismo craniano. A necessidade de cirurgia é urgente. O homem apresenta estado ainda mais grave e aguarda leito na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Esta é uma história fictícia, mas, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), de janeiro a maio deste ano, aconteceu de verdade e tirou a vida seis pessoas em graves acidentes registrados na rodovia Transamazônica, sudoeste do Pará.
Os dois personagens do exemplo acima seguiam para o trabalho quando se envolveram na ocorrência. É o que as autoridades de trânsito chamam de “acidente de trajeto”. O tema virou aula prática no encerramento da Semana Interna de Prevenção de Acidente de Trabalho (Sipat), do Hospital Regional Público da Transamazônica (HRPT), em Altamira.
O agente Aldeni Silva de Oliveira interpretou uma das vítimas. No evento, que encerrou na sexta-feira, 29 de maio, foi só ficção, mas ele já sentiu na pele as consequências de um acidente real. “Um cachorro passou na frente [da moto] e eu caí. É muito ruim a gente sofrer um acidente porque a vida para. É precisa estar muito atento para evitar”, conta o agente que teve de ser afastado do trabalho do Demutran.
A Sipat é uma ação fixa do calendário do HRPT. Ao longo de uma semana, levanta temas como saúde mental, direitos e deveres, práticas seguras e acidentes que podem ocasionar lesões leves, como um escorregão em piso molhado, até sérias sequelas, ou morte, a exemplo de um uma batida no trânsito. Essa, inclusive, é uma das principais causas de afastamento de trabalhadores no Brasil, segundo levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Em 2024, 25% de todos os acidentes envolvendo colaboradores foi no trânsito, durante a ida ou a volta do serviço.
O coordenador do Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT), do Hospital Regional da Transamazônica, Romero Oliveira, defende que a Sipat é fundamental para a compreensão da importância de manter um ambiente seguro, tanto na unidade quanto no deslocamento. “A gente tem a Cipa, que é a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes, um braço do SESMT, que tenta mitigar os riscos na instituição. E toda Cipa, que tem um ciclo de dois anos, encerra com esse evento. Eu espero que tenha servido para agregar conhecimento”, destaca.
A simulação de acidente é uma parceria com o Departamento Municipal de Trânsito (Demutran) e funciona como gatilho para despertar a atenção de colaboradores a práticas que no dia a dia, que a gente acaba deixando de lado, como respeitar a velocidade em vias sinalizadas e não furar o sinal vermelho. Carlos Alberto Rodrigues, responsável pela equipe do Demutran que esteve no HRPT para a simulação, explica que a ação é “para conscientizar todos os colaboradores, afinal, todos aqueles que venham a se envolver em sinistros é o Hospital Regional que recebe. E a gente não quer que um colaborador seja vítima atendida pelo próprio ambiente de trabalho”.
No pátio do hospital, o Demutran realizou, junto com os colaboradores, voltas de moto que simulam o trajeto de casa para o trabalho. Algo parecido com o que se aprende na autoescola durante as aulas práticas de habilitação A, aquela que permite a condução de motocicletas. “A gente fez o que chama de ‘técnica de maneabilidade’ e todo mundo foi bem. Isso serve para treinar a direção defensiva de cada um, com condições do dia a dia, como um animal que atravessa a rua, um buraco, algum obstáculo que apareça”, detalha o representante do Demutran.
Texto: Ascom/HRPT