Estudo inédito realizado pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) e Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) confirma o alto potencial dos Sistemas Agroflorestais (SAFs) de cacau no sequestro de carbono, o que é benéfico ao produtor, que poderá contar com renda extra decorrente da venda de créditos de carbono.
Os resultados do trabalho das duas instituições foram apresentados nesta quarta-feira (8), na sede da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap), em Belém, que coordena os recursos do Fundo de Apoio à Cacauicultura do Pará (Funcacau), cujos recursos financiaram a iniciativa.
Os pesquisadores já comprovaram que a quantidade de carbono sequestrado no sistema agroflorestal das áreas de cacau da região de influência da Rodovia Transamazônica (BR-230), com 32 anos ou mais, chegou a 51 toneladas por hectare. Às proximidades de Belém, precisamente no município de Marituba - onde está localizada a Estação Experimental José Haroldo (Erjoh) da Ceplac, a qual tem 200 hectares de floresta e concentra o estudo -, a quantidade ficou em 14 toneladas por hectare, considerando somente o cacau, sem avaliar as demais espécies. Na Transamazônica, a pesquisa foi realizada no município de Medicilândia, maior produtor do fruto no Pará.
O trabalho objetivou encontrar as equações alométricas - ferramentas que estabelecem a forma de calcular carbono em determinada vegetação ou sistema. O estudo calculou também a quantidade de carbono na vegetação secundária (chamada de capoeira), muito comum no Nordeste paraense. A iniciativa incluiu, de forma inédita, a equação para cacaueiros clonados.
Geração de renda- Os resultados oferecem aos produtores uma forma de negociar o carbono existente em suas plantações, abrindo a possibilidade de acréscimo na renda, informou o engenheiro agrônomo da Ceplac, Fernando Mendes, que apresentou o estudo denominado “A mensuração do carbono em áreas antropizadas (já alteradas pela ação do homem) a partir da restauração florestal e utilização de cacaueiros em sistemas agroflorestais”.
A pesquisa começou em 2025, após aprovação pelo Conselho Gestor do Funcacau, e encerrada no início de abril. "Foi um ano e quatro meses. Houve muito trabalho de campo. Foi uma associação feita entre a Ceplac e a Ufra, na pessoa do professor João Neto”, disse Fernando Mendes.
O importante para a captura de carbono é a eficiência da planta em transformar o elemento capturado em biomassa - em tronco, folhas ou frutos, e assim sucessivamente, explicou o engenheiro agrônomo. "É um complexo biológico, que faz com que essa quantidade de carbono seja maior ou menor, ou seja, a altura e densidade da planta e outros apetrechos que estão em volta no sistema”, acrescentou.
Serviços ambientais -Segundo Fernando Mendes, se o produtor se organizar pode se beneficiar desse estudo, ao oferecer uma área relevante para que as empresas que precisam reduzir seus problemas ambientais possam comprar o carbono. “O produtor se beneficia com o pagamento de serviços ambientais. Precisa fazer a sua propaganda porque os elementos técnicos e científicos para que isso seja negociado já existem”.
O secretário de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca, Giovanni Queiroz, que acompanhou a apresentação, disse que a Sedap e os representantes do segmento cacaueiro aguardavam por um trabalho como o realizado pela Ceplac e Ufra, que comprovou cientificamente o volume de carbono a ser sequestrado em lavouras de cacau com 32 anos de existência. “Isso é formidável porque habilita o produtor de cacau a negociar o carbono por ele sequestrado através da sua lavoura, e colocar à disposição do mercado. Isso é uma renda extra que será gerada ao produtor”, reforçou o titular o gestor.
A apresentação do trabalho contou ainda com representantes de órgãos estaduais do segmento agropecuário, como a Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (Seaf), e de instituições acadêmicas.