O que era apenas mais um trajeto virou um ponto de ruptura na vida de uma jovem atendida no Hospital Público Estadual Galileu (HPEG), na Grande Belém. O acidente aconteceu em frente ao shopping na avenida Centenário, também na capital paraense, quando ela seguia como passageira em uma moto por aplicativo.
“Eu só lembro que houve uma tentativa de ultrapassagem entre duas motos. Foi tudo muito rápido. Bati a cabeça e não lembro de tudo”, contou. Ela sofreu fratura no pé e múltiplas escoriações pelo corpo. Apesar de o traumatismo craniano não ter sido grave, as consequências afetaram profundamente sua rotina. Trabalhadora, estudante e responsável por ajudar nas despesas da casa, precisou interromper todas as atividades.
“Minha vida mudou completamente. Tive que parar de trabalhar e estudar. Estou internada e ainda preciso justificar tudo no trabalho. Tenho medo até de perder o emprego”, relatou.
Mais do que a dor física, o impacto emocional também é marcante. “O que mais me preocupa agora é minha saúde. Fico pensando se vou voltar a andar normalmente, se vou conseguir retomar meus planos de vida”, disse.
A autoestima também foi abalada. “É uma quebra muito grande. A gente se vê diferente. Deixei de usar as roupas que gosto, meus acessórios, meus vestidos. Estou tentando aceitar aos poucos, mas fico ansiosa para voltar a me arrumar, cuidar do cabelo, da pele, voltar a ser quem eu era”, desabafou.
Ao final, ela deixa um alerta para outras mulheres: “O trânsito é muito perigoso. Tem muita gente que não respeita as regras. Acidente a gente não espera, então é preciso ter cuidado o tempo todo.”
Impactos emocionais - Segundo a psicóloga Ana Paula, que atua na unidade, os acidentes de trânsito provocam efeitos profundos na saúde mental das mulheres, especialmente daquelas que acumulam múltiplas jornadas.
“Muitas são responsáveis pela casa, pelo trabalho e pelos filhos. Quando ocorre o acidente, há uma quebra brusca dessa autonomia, da funcionalidade e da autoimagem, o que pode desencadear quadros de ansiedade e depressão”, explicou.
De acordo com a profissional, sentimentos como medo, culpa e tristeza são frequentes. “O medo está ligado ao futuro, se vai voltar a andar, se vai recuperar a independência. A tristeza aparece pelas perdas: da rotina, do trabalho, do próprio corpo. São lutos simbólicos que essa mulher enfrenta”, destacou.
A internação também interfere diretamente na autoestima. “A pressão social sobre a imagem feminina é muito forte. O antes e o depois do acidente pode gerar frustração, apatia e sofrimento emocional”, afirmou.
O hospital oferece acompanhamento psicológico às pacientes, com acolhimento, escuta qualificada e suporte durante todo o processo de internação.
Danos físicos - Para o coordenador do serviço de ortopedia do HPEG, Marcus Preti, as lesões mais comuns em mulheres vítimas de acidentes de trânsito são fraturas nos membros superiores e inferiores, além de traumas na pelve, coluna e cabeça.
“Nos acidentes de motocicleta, as lesões costumam ser mais graves, porque o corpo fica mais exposto ao impacto. As pernas são as mais atingidas, seguidas por braços, clavícula e coluna”, explicou Preti, que também é diretor clínico da unidade.
Segundo o especialista, muitos casos exigem cirurgia, principalmente quando há fraturas desviadas, expostas ou com comprometimento neurológico. O tempo de recuperação varia de acordo com a gravidade da lesão.
“Fraturas simples podem levar de seis a oito semanas. Já lesões mais complexas podem ultrapassar um ano de reabilitação, sendo a fisioterapia fundamental para a recuperação”, ressaltou.
Ele alerta que fatores como velocidade excessiva e a falta de capacete ou cinto de segurança agravam significativamente os ferimentos.
“A prevenção ainda é o melhor caminho: respeitar os limites de velocidade, usar capacete e cinto, não dirigir sob efeito de álcool e evitar o uso do celular ao volante. Isso salva vidas e evita sequelas permanentes”, concluiu.
Apenas no ano passado, o Hospital Galileu atendeu 52 mulheres vítimas de acidentes de trabalho. Desse total, 39 casos foram decorrentes de acidentes de trânsito no trajeto entre a residência e o local de trabalho, com maior incidência envolvendo motocicletas.
Para a diretora do Galileu, Paula Narjara, a data reforça a importância de olhar para além dos ferimentos físicos. “No Dia Internacional da Mulher, é fundamental lembrar que por trás de cada paciente existe uma história de vida interrompida por um acidente. Muitas dessas mulheres são responsáveis pelo sustento da casa, pelo cuidado com a família e pela própria sobrevivência. Quando sofrem um trauma, não é apenas o corpo que é atingido, mas toda a sua rotina, seus projetos e sua autoestima. Nosso compromisso é oferecer um cuidado integral, que trate a lesão física, mas também acolha o impacto emocional e social que esse acidente provoca.”
Serviço:O Galileu é gerenciado pelo Instituto de Saúde Social e Ambiental da Amazônia – ISSAA, em parceria com a Secretária de Estado de Saúde Pública (Sespa). A unidade referência do Governo do Estado em traumatologia, funciona na avenida Mário Covas, na Grande Belém, e é retaguarda para pacientes com traumas.
Texto: Ascom/Hospital Público Estadual Galileu