O Centro de Ciências e Planetário do Pará (CCPPA) tem se consolidado como espaço de produção e reflexão científica. Recentemente, o local foi escolhido como campo de desenvolvimento de duas pesquisas elaboradas pelas servidoras da Universidade do Estado do Pará (Uepa), Camila Barros e Tâmara Pereira, apresentadas no auditório do próprio Centro. Os trabalhos foram orientados pela docente da Uepa, Jacirene Vasconcelos de Albuquerque, vinculada ao Departamento de Educação Geral (DEDG) e ao Programa de Pós-graduação em Educação e Ensino de Ciências na Amazônia (PPGEECA).
A agente administrativa da Uepa, Camila Barros, que atua no CCPPA, apresentou no dia 26 de fevereiro o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) intitulado: "Educação Científica Inclusiva: Desafios e Possibilidades para o Atendimento de Alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Centro de Ciências e Planetário do Pará (CCPPA)". O estudo foi elaborado em parceria com Fabíola Coelho Silva, e submetido ao curso de Licenciatura Plena em Pedagogia da Universidade do Estado do Pará (Uepa).
A pesquisa investiga a educação científica inclusiva para estudantes com TEA, com foco na contribuição de Museus de Ciências e Tecnologia, abrangendo o CCPPA. É analisado como esse espaço de educação não formal pode favorecer a alfabetização científica, oferecendo oportunidades de participação ativa e significativa.
“O aumento do conhecimento e compreensão sobre o comportamento humano tem ampliado o diagnóstico e o reconhecimento de pessoas com TEA. Por esse motivo, torna-se relevante estender a discussão sobre educação inclusiva para os espaços considerados não formais, a fim de se criar mecanismos e ações de acessibilidade e reflexão sobre a importância da função socioeducativa destes espaços, na construção do conhecimento científico de forma integrativa, plural e adaptada”, explica.
O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento que se manifesta através de uma ampla diversidade de sintomas e diferentes graus de intensidade. As pessoas com TEA apresentam comportamentos e formas de aprendizagem particulares, exigindo adaptações nos espaços educativos e práticas pedagógicas individualizadas.
Camila Barros destaca que a escolha do tema surgiu a partir de experiências vividas durante sua trajetória acadêmica e profissional, especialmente no contato direto com estudantes autistas durante atividades de estágio e no ambiente de trabalho. Segundo ela, a proposta do estudo também busca ampliar a discussão sobre inclusão em espaços de divulgação científica.
“Falar desse tema foi um grande desafio. Apesar de ser um assunto atual, a ideia surgiu a partir da minha experiência de estágio, quando atuei como monitora de um aluno autista suporte três. Na prática, pude sentir de perto as questões relacionadas à inclusão e me perguntei: por que não falar desse tema dentro do meu ambiente de trabalho? Foi assim que surgiu o TCC, com o objetivo de contribuir para o crescimento da divulgação do conhecimento científico, voltado à comunidade autista do Estado do Pará que visita esse espaço”, destaca.
Entre os resultados da pesquisa, Camila aponta a importância do CCPPA ao permitir vivências práticas que fortalecem conteúdos escolares, a contribuição do espaço para a divulgação científica e o engajamento da comunidade, além da importância do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) - que refere-se à abordagem educacional inclusiva que adapta o ensino às necessidades de cada aluno - na mediação do espaço e da interatividade planejada para diferentes níveis de suporte.
O TCC contou com a participação de gestores, educadores e mediadores do Planetário. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, observação participante e registros em diário de campo. A pesquisa revelou que, entre 2017 e 2024, o Centro de Ciências e Planetário do Pará recebeu a visita de 1.261 estudantes com Transtorno do Espectro Autista, número expressivo que reforça a importância de ampliar estudos e iniciativas voltadas à inclusão desse público.
Camila Barros destacou a satisfação em poder contribuir com o trabalho desenvolvido no CCPPA. “Como servidora efetiva da Uepa há quase 20 anos, poder dar um retorno para a instituição e, mais especificamente, ao Centro de Ciências e Planetário do Pará, é ainda mais significativo. Amo fazer parte da família Planetário”, afirma.
Potencial do Planetário na Formação de Professores
Assim como a pesquisa de Camila Barros evidencia o papel do CCPPA na promoção da educação científica inclusiva, outro estudo desenvolvido no espaço também investigou o potencial do Planetário como ambiente formativo para educadores. Trata-se da dissertação intitulada: "Educação Científica no Centro de Ciências e Planetário do Pará: uma proposta formativa para professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental", submetida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação e Ensino de Ciências na Amazônia (PPGEECA) da Uepa.
O trabalho foi elaborado pela técnica em Pedagogia da Uepa, Tâmara Pereira, que atua na Coordenação de Apoio e Orientação Pedagógica (Caop) do Centro de Ciências Sociais e Educação (CCSE) da universidade. O estudo foi apresentado na última quarta-feira, 4, e teve como objetivo analisar as contribuições da implementação de uma proposta formativa voltada para professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental, que lecionam Ciências da Natureza na Amazônia paraense, com foco na utilização dos espaços e recursos disponibilizados pelo CCPPA.
Tâmara apresentou a dissertação de mestrado na última quarta-feira, 4, com o título “Educação Científica no Centro de Ciências e Planetário do Pará: uma proposta formativa para professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental”, submetida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação e Ensino de Ciências na Amazônia (PPGEECA) da Universidade do Estado do Pará.
A dissertação foi motivada pela discussão sobre os desafios do Ensino de Ciências e pelas possibilidades de utilização dos Espaços de Educação Não Formal (EENF) como estratégia para contribuir com a renovação do ensino. Durante a pesquisa, foi ofertado um curso de formação continuada, realizado em seis encontros, que ocorreram entre os meses de março e julho de 2025. O público-alvo específico da pesquisa foram 10 pedagogos, que lecionam o componente curricular Ciências da Natureza nos anos iniciais do Ensino Fundamental de escolas municipais e estaduais, públicas e privadas, dos municípios de Belém, Bagre, Santa Izabel, Ananindeua e Benevides.
Na pesquisa, os museus, centros de ciências e planetários, são apontados como espaços estratégicos para ampliar as oportunidades de aprendizagem. A escolha do CCPPA como campo de desenvolvimento da pesquisa está relacionada ao potencial do espaço, especialmente no contexto amazônico. Vinculado à Pró-Reitoria de Extensão (Proex) da Uepa, o Planetário se consolidou ao longo dos anos como um importante ambiente de divulgação e popularização da ciência, recebendo tanto estudantes da educação básica, quanto o público em geral.
De acordo com a pesquisadora, a decisão de realizar o estudo no local também foi motivada por sua trajetória acadêmica e profissional ligada à universidade: “A escolha do Centro de Ciências e Planetário do Pará como lócus da pesquisa partiu, inicialmente, de uma motivação pessoal e institucional, pois sou egressa e servidora da Uepa e gostaria que minha pesquisa contribuísse com o fortalecimento da própria instituição e de seus técnicos”.
Tâmara Pereira ressalta ainda que o CCPPA possui papel estratégico na formação de professores e no fortalecimento do ensino de Ciências na região. “A escolha também se justifica, sobretudo, pela relevância pedagógica e científica do CCPPA no contexto amazônico, pois trata-se do primeiro planetário fixo da região Norte voltado à divulgação e popularização da ciência, com reconhecido potencial formativo para professores de Ciências”, explica.
Segundo Tâmara, o Planetário possibilita a integração entre o ambiente escolar e os espaços museais, favorecendo práticas investigativas e contextualizadas. “Entendemos que o Planetário possibilita a articulação entre escola e espaço museal, favorecendo práticas investigativas, contextualizadas e alinhadas aos princípios da alfabetização científica, especialmente no contexto amazônico, onde questões ambientais, territoriais e socioculturais são centrais”, completa.
Entre as principais contribuições do estudo está a ampliação da compreensão dos professores acerca dos Espaços de Educação Não Formal como ambientes formativos, e não apenas como locais de visitação eventual.
“Observou-se uma ressignificação das práticas, especialmente no que se refere às visitas ao Planetário, que passaram de momentos pontuais, com caráter de passeio, para ações pedagógicas planejadas de forma intencional, articulando o antes, o durante e o depois da experiência. A pesquisa também contribuiu para o fortalecimento do planejamento docente, destacando a importância da mediação pedagógica e da integração entre os conteúdos trabalhados na escola e as vivências nos espaços não formais. Além disso, houve ampliação do repertório metodológico dos participantes, com incorporação de estratégias mais investigativas, interdisciplinares e contextualizadas”, conclui.