A decisão do prefeito Toni Cunha de destinar cerca de R$ 1 milhão dos cofres da Prefeitura de Marabá para bancar o show de Zezé Di Camargo no Réveillon caiu como uma bomba política e social no município. Em vez de consenso, o anúncio abriu uma ferida antiga: a sensação de que a gestão escolhe espetáculo onde faltam serviços básicos.
A polêmica ganha contornos ainda mais graves porque ocorre em meio a cobranças do Ministério Público e da Defensoria Pública para que a prefeitura dê respostas imediatas à área da saúde, onde milhares de procedimentos seguem represados. Para críticos, o contraste é gritante: dinheiro para palco, luz e som não falta; para cirurgias, remédios e atendimento, falta.
Ao assumir o custo milionário do evento após a retirada de apoio federal, o prefeito preferiu transformar a decisão em discurso político, alegando perseguição e prometendo ações judiciais. O problema, apontam especialistas e lideranças locais, é que o recurso usado é municipal — o mesmo orçamento que deveria priorizar demandas urgentes da população.
A gestão defende o show como investimento em cultura e turismo. Mas o argumento encontra resistência nas ruas. Moradores questionam qual retorno real um espetáculo de uma noite traz, diante de postos de saúde sobrecarregados, filas intermináveis e bairros que convivem com problemas estruturais antigos.
Para opositores, a escolha revela falta de sensibilidade administrativa e desconexão com a realidade de quem depende do serviço público. “Não é contra a cultura, é contra o desperdício”, resume um dos discursos mais repetidos nas redes sociais desde o anúncio do cachê.
O episódio também expõe uma estratégia de confronto, em que a prefeitura prefere tensionar com outras esferas de governo e com órgãos de controle a rever prioridades e dialogar com a sociedade. O resultado é um ambiente de desgaste político crescente, que coloca a gestão Toni Cunha no centro de uma tempestade.
Enquanto o palco do Réveillon é montado, a conta fica para o contribuinte — o mesmo que aguarda atendimento médico, exames e cirurgias. A pergunta que ecoa em Marabá é simples e incômoda: o que é mais urgente para a cidade hoje, um show milionário ou dignidade nos serviços públicos?