PARÁ INVESTIGAÇÃO
Comissão da Alepa reúne sobreviventes do naufrágio de Cotijuba
A Comissão foi instalada a partir da necessidade de averiguar como ocorreram as circunstâncias do acidente.
15/12/2022 15h29 Atualizada há 3 anos
Por: Redação Fonte: Alepa

 Foi do Porto de Umarizal, localizado em Cachoeira do Arari, que partiu a embarcação que afundou no dia 8 de setembro passado, às proximidades da Praia de Cotijuba. O naufrágio resultou na morte de 23 pessoas. Outros 66 passageiros foram resgatados. Esse porto é considerado clandestino. Antes, a embarcação havia parado ilegalmente no Porto do Camará, para o embarque e desembarque de cerca de 40 passageiros. O destino final seria a cidade de Belém.

A reunião foi instalada pelo deputado Orlando Lobato, presidente da Comissão, e as perguntas conduzidas pelo deputado Carlos Bordalo, relator, que definiu a reunião como um grande bate papo, troca de informações e colheita de sugestões para equacionar os problemas identificados. As contribuições irão  constar do relatório e do marco regulatória que a Comissão pretende construir.

Para o deputado presidente, a terceira reunião foi muito importante por que os depoimentos trouxeram contribuições. "Mostrando essa ausência de regulamentação, regulação nos portos e embarcações que transportam passageiros", disse. 

A oitiva marcou o encontro do pescador Rafael Lobato Castro, 37 anos, morador de Cotijuba, proprietário de uma rabeta. Ele resgatou o casal Raimundo Ferro (65 anos) e Diva Seabra Oliveira (69), embarcados no Porto Umarizal e sobreviventes do sinistro marítimo. Eles eram pais da professora Brenda Seabra Oliveira de 34 anos e avós de Lívia Vitória de dois anos e sete meses, vítimas fatais do naufrágio.

"Aguardava um colega na praia Frecherinha para pescar. Nesse dia tinha muita maresia e nos atrasamos para sair, foi quando eu avistei duas "rabetinhas" e vimos um sinal de pano branco e fomos lá ver", relatou o pescador. "Foi nesse momento que percebi se tratar de náufragos passando em sua frente em dois botes flutuantes, uns de colete, outros sem, agarrados nas malas e sacolas que boiavam na agua", lembra o pescador. "Consegui trazer para praia sete pessoas dentro da rabeta e outros três seguros na borda". Outros pescadores trouxeram os demais sobreviventes.

"Eu e minha neta saímos por uma janela quebrada por um rapaz, e depois, fomos nos distanciando do ponto do naufrágio, devido a maresia que nos afastava, e desde esse momento não vi minha filha mais. E depois de duas horas e meia, eu não consegui manter e larguei minha neta. Aí, foi que eu vi uma pequena rabeta chegar", relatou aos prantos Dona Diva, muito emocionada.

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No momento fazia muita maresia, maré cheia, vento forte na baia do Marajó, local onde os sobreviventes foram encontrados . O marido dela, seu Raimundo, que estava sem colete no momento do salvamento, boiava com o apoio de uma mala. "Estava há mais de uma hora me mantendo e foi quando passou uma mala e ai consegui pegar ela para sustentar um pouco,  senão, não resistiria", relatou o seu Raimundo aos deputados.

Dona Diva falou com detalhes dos momentos anteriores da embarcação afundar até o seu resgate. "A viagem, apesar da maresia, estava desenrolando normalmente. E quando chegou próximo da Ilha de Cotijuba, percebemos uma  movimentação e algo estranho entre os tripulantes e o comandante. Até que a lancha foi parando e o comandante falou, 'calma gente, ninguém se levante dos bancos e fiquem sentados para não se movimentar, para que a lancha não fique virando de uma lado por outro.

"E foi então que ele mandou outro tripulante jogar a ancora e todo muito ficou preocupado,  ele estaria falando com a mãe e que logo chegaria outra lancha para nos socorrer. Mas isso não aconteceu. Ele não orientou ninguém", recorda d. Diva.

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Como tripulantes na lancha havia o comandante Marcos de Souza Oliveira, de 34 anos, sua esposa e mais dois outros tripulantes. "E quando vimos, rapidamente estava entrando água, então o comandante largou o timão e subiu. Nos ficamos desesperados, quem podia pegar o colete, colocava. Por sinal, meu esposo ficou sem colete, eu vi que minha filha estava desesperada, eu fiquei com a filha dela e ela pegou e colocou o colete em mim e acho que ela conseguiu amarrar o colete nela. E foi neste momento que a vi indo pra frente da embarcação e depois não a vi mais".

O pescador e o casal sobrevivente participaram presencialmente da oitiva. O jornalista Dário Pedrosa, do Movimento Acorda Marajó, disse que a tragédia, como a do Lourdes II, era anunciada. "Não temos fiscalização adequada mesmo tendo uma agencia reguladora. Não existe autonomia técnica e administrativa nas tomadas de decisão".

Ele confirmou aos deputados quais são os portos clandestinos existentes no Marajó, acrescentando o Porto da Umarizal, de onde a lancha partiu. Pediu mecanismos para ouvir os usuários do transporte fluvial. "Já que no Conselho Estadual de Regulação e Controle de Serviços Públicos do Estado do Pará – CONERC, não sabemos sequer quem representa os transportados nas embarcações de transporte fluvial". E solicitou aos deputados para pedir a retirada da lancha Lourdes II do fundo do Rio.

Presencialmente, participaram a Dona Raimunda Gomes Silva, da Colônia de Pescadores da Z-10; Antônio Neves, morador de Cachoeira do Arari e usuário o transporte fluvial; e Rita Serra, da FETAGRI. Virtualmente, participaram, fazendo denúncias e formulando propostas de solução, os representantes dos municípios de Santa Cruz do Arari, Soure e Salvaterra; da Associação de Mães e Remanescentes de Quilombo de Vila União e Campinas; da Cooperativa da Agricultura Social; da Associação de Transportes e Logísticas; e do Movimento Inclusão, todos movimentos sociais do Marajó; e da Associação de Moradores, Carregadores, Vendedores e Ruralistas Foz do Rio Camará, e da Associação Comunitária da Vila Joanes.

A tarde a reunião prosseguiu e ouviu em reunião semi virtual os usuários e lideranças comunitárias da conexão Região Metropolitana de Belém e municípios do Baixo Amazonas e Tapajós.

Foram ouvidos pelas redes sociais a procuradora do Ministério Público de Santarém, Herena Melo e a índia Socorro Arara. Participaram ainda um representante do gabinete do deputado federal Airton Faleiro, membros de colônias de pescadores, associações de moradores e lideranças diversas.