18 de junho de 2021

Povo Tembé diz que morte de jovem indígena no Pará foi execução e que Polícia ‘encobriu’ provas

Incoerências de versões sobre a morte da liderança jovem indígena Isac Tembé chamaram atenção de entidades, órgãos públicos e autoridades. O crime ocorreu no último dia 12, durante uma ação da Polícia Militar, na fazenda Boa Vista/Ouro Verde, em Capitão Poço, nordeste do estado. A propriedade faz fronteira com terra indígena. Isac foi baleado no peito e o tiro atravessou o corpo. Paralelo à investigação oficial da Polícia, a Comissão de Direitos Humanos e Defesa do Consumidor da Assembleia Legislativa do Pará (CDHDC-Alepa) está apurando o caso informou que irá divulgar um relatório nesta quinta-feira (25).

Indígenas Tembé Tenetehara, ouvidos pelo G1, afirmam que o assassinato pode ter sido uma execução e que o corpo e local do crime não foram devidamente periciados. Eles dizem, ainda, que Isac morreu porque, após ser baleado, os PMS demoraram horas para levar a vítima ao hospital. Os indígenas denunciam também que o boletim de ocorrência foi registrado pelos próprios policiais suspeitos do crime. Os agentes continuam na ativa.

De acordo com a versão dos indígenas, os agentes atuavam como milícia privada na fazenda Boa Vista/Ouro Verde. A propriedade fica nas proximidades da área reservada onde vivem, a Terra Indígena Alto Rio Guamá, e pertence ao fazendeiro Nédio Lopes Sales, que cria gado no local. O G1 tentou contato com a fazenda, mas não havia obtido resposta até a publicação da reportagem.
Os relatos dos indígenas contradizem a versão dada pela Polícia. Segundo a versão dos policiais, os agentes foram acionados para uma ocorrência de roubo de gado e eles agiram após serem surpreendidos por disparos de arma de fogo.

Professor de História, Isac era uma liderança atuante na comunidade e na organização da juventude. Ele fundou um grupo, o Kamarar Wà, para fortalecer a cultura do povo Tembé, recuperar danças, músicas antigas e empoderar mulheres. O jovem deixou a esposa Naiani Tibir Tembé, que está grávida de seis meses.

A morte

Isac Tembé foi assassinado na sexta-feira (12) em Capitão Poço.  — Foto: Reprodução / TV Liberal


Isac, segundo os indígenas, havia saído para caçar e atravessava a fazenda com mais três guerreiros, como sempre fizeram, para uma área de mata e não usavam armas de fogo. Neste momento, Isac foi baleado pela PM. Os outros indígenas escaparam.

O corpo de Isac foi encontrado na fazenda, na zona rural de Capitão Poço, mas, de acordo com os indígenas, a propriedade fica na zona de amortecimento da Terra Indígena, que serve para proteger a unidade de conservação de impactos negativos. O povo ainda relata que era comum os indígenas passarem por dentro desse trecho da fazenda para chegar em outra mata e caçar.

Os Tembé contam que mantinham boa relação com o dono da fazenda, e que a violência que culminou na morte de Isac os surpreendeu. A fazenda é vizinha da Terra Indígena, divididos apenas por um rio.
“Esse fazendeiro tem uma espécie de acordo com a aldeia para ele poder ter gado nessa área. A gente conhece tudo por lá, ele era amigo das lideranças indígenas. Nunca que a gente ia imaginar que ele ia mandar fazer uma coisa dessa”, completou uma liderança, que não quis se identificar.
Os indígenas da aldeia São Pedro acreditam que a Polícia teria dificultado o registro do caso na delegacia e tentado impedir a perícia do corpo. Segundo os relatos, Isac não resistiu porque os policiais demoraram cerca de quatro horas para chegar à unidade de saúde, após ele ter sido baleado. A distância do local do crime para o hospital levava cerca de 20 minutos.

Despedida
Os últimos dias após a morte de Isac foram de dor e indignação entre moradores da aldeia São Pedro na Terra Indígena Alto Rio Guamá. A comunidade visitou o local do crime após uma carreata pela cidade em protesto para pedir Justiça. Os rituais de despedida do indígena foram marcados por muita emoção.
O irmão da vítima, cacique Tazahu Tembé, liderança da aldeia, não escondeu o choro durante os rituais e discursou pela memória do indígena:
“Da pessoa que ele era em nossa memória vai ficar só coisas boas, porque vivemos muitos momentos bons com ele. E ele vai estar eternamente junto conosco no nosso movimento, na nossa atividades”, anunciou.
Na semana que sucedeu o assassinato, os indígenas se reuniram para o encantamento do espírito, ritual para que Isac continue entre o seu povo e dance em suas festas. G1

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