18 de junho de 2021

Em Belém, dois padres e 7 ex-seminaristas apontam assédio sexual do arcebispo

Caiu como uma bomba nos arraiais católicos do Pará as denúncias que envolvem o arcebispo de Belém, Dom Alberto Taveira Corrêa, em suposto assédio sexual contra menores. Dois padres da região metropolitana e sete ex-seminaristas do Instituto Pio X – cujos nomes estão sob sigilo – são os autores das denúncias, segundo revelou com exclusividade ao Ver-o-Fato uma fonte ligada à Arquidiocese de Belém.

Dos sete ex-seminaristas, quatro foram expulsos e os outros três pediram para sair. O caso, denunciado ao Ministério Público pelas vítimas, já se transformou em inquérito aberto pela Polícia Civil. Os denunciantes e o próprio Dom Alberto Taveira já foram ouvidos em depoimento, além de testemunhas, mas tudo corre sob segredo de justiça.

Renovação Carismática manifesta apoio a Dom Alberto e chama acusação de calúnia - Crédito: Arquivo / Arquidiocese de Belém


As acusações contra o arcebispo são graves e apontam que ele teria assediado sexualmente um ex-seminarista quando este teria apenas 16 anos. Também haveria relatos sobre o envolvimento de garotos de programa. Uma comissão do Vaticano esteve na capital paraense por sete dias, fez sua própria apuração das denúncias e já retornou a Roma.

Dom Alberto, diante das acusações feitas, foi aconselhado a renunciar ao arcebispado, mas teria recusado, alegando ser inocente e de que não haveria provas contra ele. Inclusive, conforme uma fonte, reagiu com a afirmação de que “só morto” sairá do cargo.

Na polícia, a ordem é boca fechada para os jornalistas. O mesmo ocorre dentro da Cúria Metropolitana de Belém, nas paróquias e prelazias, para onde foi transmitida a seguinte ordem: silêncio total sobre o assunto. As pressões também teriam chegado aos próprios denunciantes para que desmintam as acusações contra Dom Alberto. Isto, porém, não foi confirmado.

O Ver-o-Fato apurou que o bispo do Marajó, Dom José Luiz Azcona estaria em rota de colisão com o arcebispo, pois teria sido apontado por Dom Alberto como pivô das denúncias à Cúria Romana e ao programa Fantástico, da Rede Globo, que esteve em Belém há cerca de 20 dias e possivelmente deve levar ao ar matéria sobre o escândalo nesta noite de domingo, 6.

Na verdade, Dom Azcona foi a primeira pessoa do meio eclesiástico a ser procurada pelos padres e ex-seminaristas, uma vez que o próprio arcebispo não seria o canal correto das denúncias justamente por ser ele o envolvido. De acordo com as informações, o bispo teria ficado “estarrecido” ao ouvir os relatos e prometido tomar providências.

A tentativa de ouvir Dom Azcona para ele confirmar ou desmentir sua participação nas denúncias, porém, foi inútil. Desde o começo desta manhã de domingo o Ver-o-Fato efetuou diversas ligações telefônicas para a Prelazia do Marajó. Ora o telefone dava ocupado, ora apresentava barulho na ligação, impossibilitando ouvir a voz de quem estava do outro lado da linha. O espaço está aberto à manifestação do bispo marajoara.

Para um integrante da Arquidiocese, que pediu para não ser identificado, a postura do bispo do Marajó no episódio seria lamentável, porque ele acreditou nas denúncias sem checá-las e sem ouvir Dom Alberto. “Quando ele foi atacado por um búfalo no Marajó, em maio de 2016, o arcebispo deu toda a ajuda para Dom Azcona recuperar a saúde, não faltou nada para ele”, concluiu.

Tribunal religioso apura e julga denúncias

Em março deste ano, Dom Alberto Taveira, por orientação do Vaticano – leia-se papa Francisco – assinou o “Decreto de nomeação do Órgão para conhecer e instruir processos eclesiásticos de abuso sexual contra menores e vulneráveis”. No documento, do Moto Próprio ‘Vos estis Lux Mundi’ (Vós sois a luz do mundo) do
Papa Francisco, a finalidade é “combater eventuais abusos sexuais cometidos por clérigos e religioso”.

Diz o arcebispo de Belém no documento: “pela autoridade que exerço em vista do cargo que ocupo na Igreja como Arcebispo, nomeio o Tribunal Arquidiocesano de Belém para conhecer, averiguar, instruir e fazer investigação prévia para Processos Eclesiásticos de eventuais abusos sexuais contra menores e vulneráveis cometidos por clérigos, religiosos, membros de Vida Apostólica e similares, e por fim, entregar o Relatório à Autoridade competente para o julgamento. Publique-se também o Regulamento próprio a ser seguido pelos autores da denúncia”.

O Regulamento para “eventuais denúncias contra abuso sexual de menores e vulneráveis”, assinado no dia 19 de março deste ano, pelo arcebispo Dom Alberto Taveira Corrêa e pelo chanceler da Arquidiocese de Belém, cônego Antônio Beltrão Ribeiro Filho, tem o seguinte teor:

“1- O abuso sexual contra menores e vulneráveis sempre causa graves danos físicos, psicológicos e espirituais às vítimas, e com maior gravidade ainda se cometidos por Clérigos e Religiosos.
2- Por menores entendem-se jovens de até 18 anos completos.
3- Abuso sexual não é apenas conjunção carnal, mas também outros atos previstos do Código Penal e no Estatuto da Criança e do Adolescente, como toques, carícias nas partes íntimas e semelhantes.
4- Se um menor tiver sido abusado por clérigo ou religioso, pode fazer a denúncia junto ao Tribunal Eclesiástico de Belém, por si ou por um seu responsável.
5- Para isso deverá marcar audiência no Tribunal Arquidiocesano por um desses telefones: (91) 3215.7001 e 3215.7002.
6- Se possível deve trazer a Carta Denúncia contra o acusado, relatando brevemente os fatos, dando o nome e endereço completo de quem acusa, do acusado e de
testemunhas que conheçam os fatos.
7- Não serão aceitas denúncias anônimas, pois será impossível averiguar a veracidade dos fatos.
8- O processo correrá em ‘segredo de justiça’ para salvaguardar o bom nome do acusado e da vítima.
9- Feita a Instrução Processual, os Autos serão entregues ao Arcebispo com o Parecer do Promotor Eclesiástico de Justiça e do Instrutor. O Arcebispo de Belém julgará e enviará cópia de todo o Processo para o Papa em Roma.
10- A denúncia deve ser verdadeira, pois se for caluniosa, o caluniador, por tratar-se de um fato gravíssimo, sofrerá as penas previstas do c. 1390.
Dado e passado em nossa Cúria Metropolitana de Belém-PA, aos 19 de março de 2020. “

O item de número 9 do Regulamento diz que o próprio arcebispo, após a instrução do processo, fará o julgamento. E depois enviará todo o processo para o Vaticano. Ora, se ele é o acusado das denúncias, como agiu? Julgou-se suspeito?

Com a palavra, a Arquidiocese de Belém.

“Dor no coração”, diz Dom Alberto

Qualquer tentativa de ouvir o arcebispo é frustrada, porque ele não quer e nem vai falar sobre as acusações. São ordens do Vaticano. Por meio de nota aos sacerdotes da Igreja Católica do Pará, ontem, ele assim se manifestou:

“Aos sacerdotes da Arquidiocese de Belém. Caríssimo irmão sacerdote. Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, tu e ele a sós! Se ele te ouvir, terás ganho o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, de modo que toda questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. Se ele não vos der ouvido, dize-o à igreja. Se nem mesmo à igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um publicano” (Mt 18,15-17).

Dirijo-me a você com imensa dor no coração. Fui acusado de crimes de ordem moral, sem que me tenha sido dada a oportunidade de ser ouvido. Foram denúncias enviadas à Santa Sé, que provocaram uma Visita Apostólica, encerrada nesta semana; foi instaurado um processo em curso junto às autoridades civis. A iminente divulgação em mídia nacional, ao que tudo indica, causará danos irreparáveis à minha pessoa e provocará um profundo abalo à Igreja.

Não tenho o direito de me omitir diante do meu clero, e submeto-me ao juízo dos irmãos, sabendo, entretanto,que o mais importante vem de Deus, e ele saberá encaminhar tudo. Tenho clara consciência da improcedência das acusações que me são feitas, sendo por agora obrigado a aguardar os procedimentos investigativos das autoridades civis, que correm em segredo de justiça.

Como não poderia deixar de fazer, constituímos advogados para acompanhar o processo. Sei do testemunho da grande unção que há no coração do nosso clero, do forte espírito fraterno e senso de comunhão eclesial. Conheço o seu empenho em tornar fecundo o seu ministério e as intempéries porque passa para exercê-lo com fidelidade ao Senhor.

Não desconheço suas valiosíssimas expressões de apreço que me chegam constantemente, compartilhando alegrias e preocupações. Por isso, asseguro-lhe a minha tranquilidade quanto a tudo isso, estou nas mãos de Deus, como todos devemos estar sempre, na certeza de que nele está a solução para esta situação, que eu nunca poderia imaginar de passar.

Confio, portanto, na divina Providência, como nos pede o Apóstolo São Pedro: “humilhai-vos sob a poderosa mão de Deus, para que na ocasião própria vos exalte; lançai nele toda a vossa preocupação, porque é ele que cuida de vós”(1 Pd5,6-7). Nesta experiência de calvário, conto com suas orações para que eu permaneça firme e o brilho da verdade sempre prevaleça. Peço-lhe que esta carta seja lida na sua integra ao povo de Deus Com o coração cheio de dor e esperança! Dom Alberto Taveira Corrêa. Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará”

Portal Parazão Tem de Tudo / Ver-o-Fato

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