DATA:7 de dezembro de 2019

Presidente da Vale dispensou aviso antes de desastre mortal em Brumadinho

Os principais gerentes da Vale receberam um aviso de e-mail anônimo sobre o estado das barragens da mineradora duas semanas antes do rompimento mortal ocorrido em Brumadinho (MG). O e-mail levou o então presidente da empresa a tentar descobrir a identidade do autor e chamar a pessoa de “câncer”, segundo documento que consta nas investigações da polícia.

As autoridades disseram que estão se concentrando na resposta do então presidente Fabio Schvartsman ao investigar se uma cultura de retaliação na empresa contribuiu para o colapso ocorrido em 25 de janeiro, em Brumadinho, que matou 270 pessoas, o desastre de mineração mais mortal do mundo em mais de 50 anos.

O e-mail do dia 9 de janeiro, enviado a Schvartsman, ao atual presidente Eduardo Bartolomeo, ao diretor financeiro Luciano Siani Pires e outros executivos, afirmou que as barragens de rejeitos da empresa estavam “no seu limite”, de acordo com resumo do recente interrogatório de Schvartsman pela polícia e promotores, obtido pelo The Wall Street Journal.

Um porta-voz da Vale disse que o e-mail era genérico e carecia de provas, negando veementemente uma cultura de retaliação na empresa. Os diretores executivos da Vale nunca tiveram conhecimento sobre um risco crítico ou iminente na barragem antes que ela desabasse, disse ele.

Ele acrescentou que a empresa analisou o e-mail e sua referência a barragens “no limite”, concluindo que isso significava que estavam em sua capacidade – um problema que a mineradora já estava abordando.

O advogado de Schvartsman disse que seu cliente sempre acompanhava as queixas como presidente da Vale quando elas incluíam informações concretas, dizendo que o e-mail carecia de fatos específicos. Bartolomeo e Siani não foram encontrados para comentar.

O e-mail anônimo, intitulado “A Verdade”, trecho do documento policial, não menciona especificamente a estrutura da barragem que desabou em Brumadinho cerca de duas semanas depois, de acordo com relatório da polícia.

“Estamos enfrentando grandes desafios pela frente, nossas operações não têm o nível mínimo de investimento adequado, falta pessoal nas áreas de operação, manutenção e engenharia e eles são mal remunerados … os equipamentos estão quebrando, as barragens estão no seu limite”, afirma o e-mail.

No domingo seguinte, depois de receber o texto, Schvartsman, que teve que deixar o cargo em março, enviou um e-mail a três colegas ordenando que eles descobrissem o autor. Ele queria “olhar [o autor do email] olho no olho”, segundo disse aos investigadores. Schvartsman não promoveu uma investigação dos problemas citados no e-mail. Ele disse às autoridades que ele e seus colegas nunca identificaram o autor do texto.

Questionado pelas autoridades sobre sua resposta, Schvartsman disse acreditar que o e-mail anônimo é de um funcionário que estava descontente com as políticas do presidente destinadas a acabar com uma cultura corporativa que, segundo ele, estava dividida em feudos.

O advogado de Schvartsman disse que outros dois diretores da Vale também disseram que o e-mail continha inconsistências e acreditavam que o remetente agiu de má fé.

Nas entrevistas coletivas após a tragédia, Schvartsman disse que os problemas técnicos relacionados às barragens eram de responsabilidade dos funcionários de nível inferior e que todas as informações recebidas indicavam segurança.

Os investigadores do caso disseram suspeitar que a alta administração da Vale se protegesse deliberadamente de informações incriminadoras para evitar responsabilidades, praticando táticas de retaliação e intimidação em um setor em que a empresa dominava.

O Journal informou, em fevereiro, que funcionários da TÜV SÜD conheciam há meses as condições perigosas na barragem, mas a certificavam como segura de qualquer maneira, preocupados em perder negócios com a Vale. Outro consultor disse ao Journal que acreditava que a Vale não renovou seu contrato com a mineradora depois que apontou problemas estruturais em outra barragem da empresa.

Em maio, o Journal informou que os trabalhadores da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, alertaram seus chefes para problemas na barragem nos meses anteriores, mas foram ignorados. Outros trabalhadores disseram que estavam com muito medo de expressar suas preocupações por receio de perder o emprego na Vale, um dos maiores empregadores da cidade. Um porta-voz da Vale disse que oferece muitas maneiras eficientes para que funcionários e prestadores de serviços registrem reclamações anônimas.

A Polícia Federal disse em um relatório de 215 páginas que estudos realizados pelos próprios consultores da Vale nos 12 meses anteriores ao desastre mostraram que a estrutura era frágil e acabaria em colapso, informou o Journal em outubro.

Os promotores estão preparando acusações criminais contra funcionários da Vale no caso, que podem incluir executivos de alto nível, disseram autoridades ao jornal.

A polícia anunciou acusações contra sete indivíduos de baixo escalão da Vale e seis funcionários da TÜV SÜD por encobrir perigos estruturais na barragem nas auditorias de segurança do ano passado. A TÜV SÜD disse que estava cooperando com as autoridades.

As autoridades disseram acreditar que a Vale estava preocupada com o fato de que qualquer problema em suas barragens pudesse assustar os acionistas após o colapso de outra barragem, ocorrido em Mariana (MG) em 2015, que possuía por meio da Samarco, joint venture com a BHP. O rompimento matou 19 pessoas. As medidas preventivas e de segurança tomadas no local eram inadequadas, disseram eles.

Embora a Vale tenha instalado uma sirene para alertar os trabalhadores e a comunidade vizinha em caso de ruptura, ela não disparou quando a estrutura desabou às 12h28. em 25 de janeiro. Um tsunami de lama destruiu o refeitório lotado da mina, além de casas próximas e uma pousada.

Em seu depoimento à polícia, Schvartsman disse que foi informado que a sirene não soou porque a pessoa responsável por acioná-la estava no refeitório no momento do colapso, de acordo com o documento policial. A pessoa conseguiu fugir da lama e sobreviveu, disseram as autoridades.

Os investigadores também perguntaram a Schvartsman se ele acreditava que era seguro ter o refeitório localizado abaixo da barragem, em uma área que os próprios estudos da empresa mostraram que seria atingida se a barragem desabasse. “[Sr. Schvartsman] respondeu que não era capaz de dar uma resposta em “preto ou branco”, pois não tinha conhecimento técnico sobre o assunto”, escreveu a polícia no documento. As informações são do The Wall Street Journal.

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